A jornalista ressalta a necessidade da interação entre 

profissionais de diferentes áreas (Foto: Renato Velasco)

Jornalista e professora do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Yvana Fechine é especialista em mídias digitais. Autora de um artigo sobre o tema, publicado no livro “Estudos de Televisão – Diálogos Brasil-Portugal” (Editora Sulina, 2011, com selo do Globo Universidade), a pesquisadora conversou com o Globo Universidade sobre os avanços e desafios relativos à implementação da TV digital no Brasil.
Globo Universidade – Além de atuar na academia como professora e pesquisadora, você já trabalhou em diversas empresas de comunicação. A experiência prática complementa a parte teórica das suas pesquisas atuais? De que maneira isso contribui para o seu trabalho?
Yvana Fechine – Essa experiência prática sempre influenciou, direta ou indiretamente, o meu olhar de pesquisadora, despertando o meu interesse em torno de certos objetos e problemas de pesquisa. Não por acaso, todos os meus trabalhos, desde que me dediquei à vida acadêmica, possuem um lastro muito claro na instância da produção e costumam aliar a reflexão crítico-teórica com uma preocupação propositiva. Tenho tentado também cultivar uma interlocução frequente com os profissionais de Comunicação, pois acredito que, embora existam ainda reservas de ambas as partes, a aproximação entre o mercado e a academia pode ser muito produtiva.
GU – Em artigo publicado no livro Estudos de Televisão, você problematiza a TV digital. A seu ver, como está a produção de pesquisas sobre este tema atualmente?

YF – Considero que, de modo geral, as pesquisas sobre esse tema na Comunicação são ainda muito poucas diante da sua importância. Os primeiros estudos sobre TV digital concentraram-se no campo da Economia Política da Comunicação, subárea na qual permanecem, ainda hoje, predominantes e com produção mais regular.
GU – No seu artigo, você fala sobre multiprogramação. Pode explicar melhor o que é isso?

YF – Com a tecnologia analógica, cada concessionário pode transmitir apenas um conteúdo audiovisual na banda de 6MHz disponível no espectro para cada canal de televisão. Na tecnologia digital, a mesma banda de 6MHz pode transmitir múltiplos fluxos informacionais audiovisuais. É o que chamamos de multiprogramação. Um canal de TV analógica terrestre, quando digitalizado, oferece uma largura de banda de, aproximadamente, 20 Mbps (Megabits por segundo). No SBTVD-T, a banda é composta por 13 segmentos de transmissão, sendo um deles reservado para dispositivos móveis e portáteis, o chamado 1-seg. Restam doze segmentos por meios dos quais pode ocorrer a transmissão dos dados de áudio e vídeo em combinações flexíveis. Por serem flexíveis, os segmentos de transmissão podem ser arranjados em um fluxo informacional principal, que denomino “canal principal”, bem como em fluxos informacionais secundários, que denomino “subcanais”. O desafio, a meu ver, é aproveitar esses múltiplos fluxos informacionais para oferecer mais conteúdo ao espectador, quer seja na forma de outra programação, quer seja aproveitando os fluxos informacionais secundários para oferecer conteúdo articulado com a grade de programação.
A jornalista ressalta a necessidade da interação entre 

profissionais de diferentes áreas (Foto: Renato Velasco)

GU – No seu artigo, você aponta a necessidade da interação entre profissionais e pesquisadores de Comunicação e de Tecnologia. Pode explicar melhor de que modo a interdisciplinaridade contribui para a qualidade da TV digital?

YF – A necessidade de uma interlocução de caráter mais interdisciplinar aparece, sobretudo, na produção de conteúdos inovadores. A TV, agora, é também um computador, e não há como propor formatos interativos integrados sem o desenvolvimento de softwares (aplicativos). Se os produtores de Comunicação e os profissionais de Informática, bem como os pesquisadores das duas áreas, trabalharem juntos em projetos que explorem formatos interativos e colaborativos, poderemos desenvolver protótipos capazes de pressionar os atuais modelos de negócios, forçando avanços em direção, de fato, a formas de convergência.

GU – Na sua opinião, quais foram as principais mudanças implementadas pela digitalização da TV no Brasil?

YF – Infelizmente, com exceção da imagem em alta definição, são poucas as mudanças usufruídas pelo grande público que observamos até aqui. Sem a disposição para discutir – e eventualmente rever – questões espinhosas, que envolvem das políticas de comunicação aos modelos de negócios, será muito difícil a experimentação de formas e formatos que tirem proveito, por exemplo, de potencialidades técnico-expressivas da TV digital. Os experimentos com a interatividade são ainda muito tímidos, sem atrativos e pouco difundidos. Além disso, a multiprogramação, outra propriedade da TV digital capaz de estimular a diversidade da produção e abrir excelentes portas para experimentação com conteúdos adicionais, ainda não está ao alcance do público e carece de um debate amplo e qualificado.
GU – Quais são as principais diferenças entre os processos de digitalização da TV no Brasil e na Europa/Estados Unidos?

YF – O processo brasileiro de implantação da TV digital foi marcado por muitas críticas quanto ao conservadorismo do Governo em suas escolhas e decisões estratégicas que pareceram, à época, atender mais ao desejo dos radiodifusores de “mudar sem mudar”, ou seja, sem alterar as regras ou o sistema de distribuição dos canais de difusão nem o modelo de negócios das emissoras. A despeito dessas críticas, não se pode negar que, tecnologicamente, o modelo de TV digital adotado no Brasil é um dos mais avançados do mundo. Trata-se de um sistema que integra elementos do padrão japonês, sobretudo nos aspectos de modulação, mas que possui um maior poder de compressão dos dados e um middleware (software instalado nos conversores e televisores digitais sobre o qual as aplicações interativas são executadas) inovador, o Ginga. No Brasil, o formato de compressão adotado é o MPEG-4 AVC/H.264, que é mais eficiente em termos de compactação e compressão dos dados do que o MPEG-2, adotado em outros países, o que nos permite enviar mais informações (conteúdos) em uma mesma faixa de transmissão. Para se ter uma ideia mais concreta, com a tecnologia de compressão adotada na TV digital brasileira, é possível transmitir até dois programas em alta definição (HDTV), simultaneamente, ou, se for a preferência, um programa em HDTV e pelo menos dois outros em definição padrão (SDTV). Com o formato de compressão MPEG-2 é possível transmitir apenas um programa em alta definição.
GU – Pode citar alguma experiência de novo gênero ou formato bem sucedido na televisão digital?

YF – Proponho considerar que um “formato bem sucedido na TV digital” é aquele que foi criado ou pensado para tirar proveito das potencialidades técnico-expressivas da TV digital, que são, principalmente, a alta definição, a multiprogramação, a interatividade e a mobilidade. Infelizmente, não considero que há, de fato, um formato realmente inovador e bem sucedido explorando tudo isso. Programas jornalísticos e transmissões esportivas têm explorado, ainda que de modo limitado, recursos interativos para disponibilização de conteúdos adicionais, sobretudo. Um formato, porém, que merece nossa atenção, até porque já surge com vocação para a convergência, é o reality show Big Brother Brasil. Embora sua interatividade não seja direta, isto é, não se pode votar nem interagir a partir da própria TV, não há dúvidas de que o programa já surgiu como um formato multiplataforma e é um legítimo exemplo da convergência propiciada pela digitalização dos meios. É um formato que consegue compatibilizar, por exemplo, a lógica do fluxo – na TV aberta – com a lógica da demanda – nos canais pagos e na Internet. O programa também articula um agenciamento interativo com um conteúdo compartilhado massivamente, integrando formas de participação individual em atividades coletivas. No Big Brother Brasil, o espectador interage individualmente, mas, no final, compartilha um repertório coletivo. O reality show também permite diferentes níveis de envolvimento, o que é muito favorável nesse momento de transição que vivemos, no qual a TV distribui seus conteúdos em outras plataformas. O espectador pode se envolver ativamente, através de votações, blogs, redes sociais, mas pode também apenas assistir à “novelinha” na TV aberta.
GU – A seu ver, quais são as potencialidades da TV digital ainda pouco exploradas no Brasil ?

YF – Como já mencionei antes, a interatividade e a multiprogramação me parecem propriedades técnico-expressivas da TV digital capazes de qualificá-la e, por isso, deveriam ser objeto de maior atenção, interesse e experimentação, mesmo que laboratorial. Ainda que não haja, em função de uma série de dificuldades (como a regulação e os modelos de negócios) um horizonte de implementação tão claro e imediato, pois o tempo de pensar o amanhã é hoje.

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