A nova Globeleza e o carnaval da televisão

Globeleza 2017 representa diversas formas do carnaval brasileiro (TV Globo – Divulgação)


A personagem foi apresentada no dia 8 de janeiro com diferentes figurinos e acompanhada de outros bailarinos


Da redação SICOM-PET, Marina Debrino

 

A vinheta tradicional de carnaval da Globo passou por algumas mudanças neste ano, sendo a mais impactante o novo figurino da Globeleza. A principal mudança é que agora, de fato, há um figurino além de uma cobertura de purpurina. A personagem, que há 26 anos mantinha o mesmo roteiro de representar o carnaval de escolas de samba, dessa vez apresentou também outros costumes regionais, como o frevo, o maracatu, o Bumba Meu Boi, escapando do eixo Rio – São Paulo de Carnaval.

Globeleza anterior ainda com purpurina (TV Globo – Divulgação)

 

A Globeleza causava desconforto em relação a estereótipos femininos, principalmente envolvendo a figura da mulher negra. Antes do carnaval em 2016, Djamila Ribeiro, ex-secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, e Stephanie Ribeiro, ativista, escreveram um texto no blog “Agora é que são elas” da Folha de São Paulo criticando a figura da Globeleza e os estereótipos que ela representa.

Estamos falando de uma personagem que surgiu na década de noventa e até hoje segue à risca o mesmo roteiro: é sempre uma mulher negra que samba como uma passista, nua com o corpo pintado de purpurina, ao som da vinheta exibida ao longo da programação diária da Rede Globo”, afirmaram. A questão levantada pelas ativistas é que o lugar reservado à mulher negra continua sendo específico, desconsiderando sua multiplicidade e complexidade.

 

Djamila Ribeiro – (Divulgação)

 

Para Lilian Peres, estudante de Letras, a mudança não é necessariamente um avanço. “Não só durante o carnaval a imagem que a mídia faz da mulher – principalmente em  propagandas –  é sexualizada, em particular a figura da mulher negra, que é majoritariamente representada pela mídia nacional enquanto empregada de novela, alívio cômico ou “mulata” sensual que samba. No carnaval o último estereótipo só é mais veiculado, mas são representações presentes no imaginário do brasileiro, que a mídia reproduz”, aponta Lilian.

 

Novela Viver a Vida (Divulgação)

 

Ainda no texto de Djamila e Stephanie, as autoras questionam os papéis que atrizes negras representam na televisão de forma geral: Quantas mulheres negras vemos como atrizes, apresentadoras, repórteres nas grades das grandes emissoras? E quando vemos atrizes, quais são os papéis que estão desempenhando? Raramente vemos mulheres negras na grade da Globo apresentando programas ou sendo protagonistas, mas no período do carnaval, a emissora promove um “caça mulatas” para eleger a nova Globeleza, que somente aparece nua e nessa época do ano”.  

 

 

O carnaval mostrado na televisão, principalmente nos desfiles de escola de samba, exploram de maneira exagerada a sensualidade da mulher, o que fica evidente nas entrevistas antes ou após os desfiles. As câmeras focam em mostrar o corpo das mulheres que se preparam o ano todo só para esse momento. Assim, a mulher se torna um objeto que  serve  para o entretenimento, transmitindo a ideia de que  é mais uma atração deste evento. Ao optarem por diversos figurinos na Globeleza, o foco da vinheta ultrapassa a exposição do corpo feminino enquanto símbolo do Carnaval e assume a função de representar as diferentes culturas desta festa.   


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Wesley Anjos

Jornalista em formação, escritor e ator nas horas vagas. Típico amante das artes, é viciado em fabular e beber mate, não necessariamente nesta ordem.

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