A tarde que passamos com o primeiro escritor indígena da região de Bauru

Créditos: Pedro Maziero


Da tribo Terena, Irineu Njea’a é historiador, especialista em antropologia e presidente da ARACI, associação que luta pela preservação da cultura indígena


Da redação SICOM-PET, Wesley Anjos

 

Era mais uma tarde chuvosa como tantas deste último verão bauruense. Quando chegamos à sala da Associação Renascer de Preservação da Cultura Indígena (ARACI), que fica no Museu Ferroviário Regional de Bauru, demos de cara com Irineu terminando um de seus artesanatos. Após os cumprimentos, eis que ele nos alerta para algo primordial: “de modo algum use o termo ‘índio’ e sim o termo ‘indígena. Por que será que ele não demonstrou aprovação à palavra ‘índio’? 

Como jornalista é um bicho essencialmente curioso, tratamos logo de pedir para que ele nos contasse mais a respeito. Atencioso e muito didático, algo que foi de grande valia em toda a entrevista, ele explicou: A palavra índio era um termo usado pelos europeus para as pessoas que moravam fora da Europa e para quem morava no país Índia. E quando eles chegaram ao Brasil, aqui tinha mais ou menos 1500 povos. Só que eles não se atentaram a conhecer quem eram esses 1500 povos. Eles se atentaram apenas em explorar a terra, de forma que colocaram todos dentro de um saco em que todo mundo vira índio“.

 

Este slideshow necessita de JavaScript.

Com paixão, ele nos conta ainda que indígena é aquele que é originário da terra, “o que nasceu aqui, bem diferente da palavra índio”.A palavra índio tira a identidade. Então me chame de Irineu. É como se me chamassem por um apelido. A vida inteira chamam você por um apelido e aquela pessoa que te encontra não sabe o seu nome. Eu me sentia sem identidade e, a partir do momento que eu publiquei um livro, comecei a usar o termo indígena“. 

Neste instante, mais uma vez tivemos certeza que não estávamos falando apenas com o presidente da ARACI Cultura Indígena, tampouco com o historiador e antropólogo. Não. Muito mais do que isso. Era Ireneu Njea’a do povo Terena que estava bem na nossa frente prestes a nos dar uma aula que quebraria muitas de nossas ignorâncias sobre o tema.

 

Vídeo: Lucas Mendes – Divulgação

 

ARACI Cultura Indígena

Embora ARACI seja uma sigla, Irineu compartilha conosco que prefere que seja dito ARACI Cultura Indígena, para não haver confusões com um nome de mulher. Mas se é para falar sobre isto, vale ressaltar que o trabalho de Irineu com a preservação indígena surgiu em 2003, antes do surgimento da associação, só que de forma solitária. Em 2014, com um grupo de amigos de antropologia, fundamos a ARACI. Mas falemos em ARACI Cultura Indígena“. 

 

Este slideshow necessita de JavaScript.

 

A associação traz para a região algumas palestras com o professor Márcio Coelho, que é mestre em antropologia. A intenção é promover um contato maior das pessoas e romper a mania de aglutinar a pluralidade das tribos indígenas brasileiras em uma cultura só. Mais do que as palestras com Coelho, a associação tem oferecido uma capacitação aos professores da rede municipal de Bauru por intermédio de um curso de História e Cultura Indígena.  

 

Acervo de livros da ARACI. (Foto: Pedro Maziero)

Eles contam ainda com um acervo de artesanatos de diferentes tribos e uma biblioteca com obras que abrangem cerca de 20 etnias indígenas brasileiras. As obras ainda não foram catalogadas, tampouco possuem um bibliotecário. Há um longo trabalho pela frente.

 

Mito de origem do povo Terena

Se você pensou até aqui que o trabalho com a rede de educação municipal de Bauru é feito somente com os professores, está enganado. O trabalho da associação também chega diretamente às crianças. Não dissemos que passamos uma tarde com o primeiro escritor indígena da região de Bauru à toa. Mas, antes de falarmos sobre sua obra, precisamos falar sobre o seu povo. Afinal, ambos são intrínsecos. 

 

Documentário produzido com o apoio do Edital de Apoio à Produção de Documentários Etnográficos sobre o Patrimônio Cultural Imaterial 

 

Os terenas são originários do Mato Grosso. Inclusive, atualmente há cerca de 26 mil terenas por lá. O ano que eles chegam até a região de Bauru é o de 1932. Os guaranis que ocupavam as terras da Aldeia Kopenoty, uma das quatro que compõem a Reserva de Araribá. A reserva fica localizada no município de Avaí. Na época, os guaranis estavam morrendo com a gripe espanhola. 

Por serem terras devolutas, Marechal Rondom, simpatizante das causas indígenas e amigo do povo terena, indicou o espaço para eles. Atualmente, a Reserva Indígena de Araribá possui predominância dos terena, guaranis e kaigangs.

Passados tantos anos, algo muito importante da cultura terena estava morrendo na aldeia: o mito do seu povo. Quem diria que pessoas estariam escondidas em um buraco, nuas e com frio, e um bem-te-vi ajudaria a encontrá-las? Um mito que traz a participação de outros animais na busca do fogo para aquecê-las e explica a origem do mundo como ele é hoje.

 

Vídeo: Lucas Mendes – Divulgação

 

Para manter este mito vivo na aldeia, uma grande preocupação do seu pai, Irineu escreveu o livro. Mais tarde, seria uma obra compartilhada com as crianças do ensino municipal e estadual bauruense. “Eu tenho levado o mito do meu povo. Este livrinho é a chave para a porta de entrada que traz a questão da reflexão indígena para as crianças. Ele é desenhado. Demorei uns 8 meses, quase 1 ano para desenhar ele todo. Eu falo que é um artesanato intelectual. Quando a criança olha, mesmo que não saiba ler, ela entende. É um livro para todas as faixas etárias  As professoras amaram“. 

 

Este slideshow necessita de JavaScript.

 

Era para visitar 23 escolas apresentando a sua obra. Todavia, acabou por visitar 33. Inclusive, não é só em Bauru que os seus livros têm  sido apreciados. O mito terena tem percorrido o Brasil. Já foi vendido em Brasília, Belém, Manaus, Mato Grosso e Goiás. 

 

Curiosidades:

Parte do trabalho de Irineu na preservação da cultura indígena diz respeito à sua militância contra o genocídio das populações indígenas decorrente do confronto com o agronegócio. A sua militância também vai de oposição à polêmica PEC 215. Em breve o PET-RTV trará uma matéria especial sobre estes conflitos e explicará um pouco mais sobre este Projeto de Emenda Constitucional. Fiquem atentos!

 

Veja também:

Wesley Anjos

Jornalista em formação, escritor e ator nas horas vagas. Típico amante das artes, é viciado em fabular e beber mate, não necessariamente nesta ordem.

Deixe uma resposta