Cara gente branca: questões retratadas na série dialogam com a Unesp de Bauru

Embora no Brasil não seja tão escancarado quanto nos Estados Unidos, o racismo daqui começa com o número de negros na universidade

 

Da redação SICOM-PET, Wesley Anjos

 

Era uma noite bem fria quando decidi que assistiria a “Dear White People”, que em tradução livre podemos chamar de “Cara gente branca”. Como se tratava de um sábado que precedia um feriado prologando, não teve outra: maratonei em uma única noite. Enquanto via, não podia deixar de pensar que apesar de a história ser ambientada em uma universidade estadunidense, onde a segregação racial é latente, muitos dos dilemas apresentados podem ser considerados universais.

Composta por dez episódios com cerca de trinta minutos cada, a trama apresenta diferentes problemas que jovens com a pele preta enfrentam no cotidiano de suas relações acadêmicas. Mais do que os problemas, há também diferentes formas de militância, resistência e até mesmo as contradições entre os diferentes grupos negros.

 

 

Racismo na Unesp Bauru

Quando se trata de ações afirmativas por cor, ou cotas, como estamos acostumados a chamar, tem sido a medida adotada como reparação histórica no Brasil. A Agência Brasil divulgou dados do IBGE que confirmam que esta medida de fato contribuiu para o aumento de universitários negros no país. Em 2015, 12,8% dos jovens negros haviam ingressado no curso superior, enquanto, no mesmo período, o percentual de brancos foi de 26,5%. Embora tenha dado frutos, percebemos que os números e as oportunidades continuam desiguais.

 

Em Dear White People, Reggie Green, interpretado por Marque Richardson, sente na pele o peso do racismo e a repressão policial. (Foto: Netflix – Divulgação)

As cotas ajudam a pensar em um novo mecanismo de meritocracia. Não existe meritocracia de fato em sociedades desiguais. Desde o século XIX até os anos 30, as universidades implementadas no Brasil recebiam alunos brancos. Então elas tinham cotas, só que para alunos brancos e de classe média” – enfatizou o Prof. Dr. Juarez Tadeu de Paula Xavier do Departamento de Comunicação Social em entrevista concedida no ano de 2015, logo após um episódio de pichações racistas em um dos banheiros da unidade.

O episódio do banheiro trouxe à tona o racismo velado no país e uma atitude de intolerância por uma parcela de alunos brancos com relação às cotas. O professor Juarez explica que a implementação das cotas pode ser de forma conflituosa, como o caso americano, com forte aumento de policiamento e segregação, ou com uma preparação da universidade para uma recepção de fato. E não adianta apenas receber o aluno negro, pobre ou de escola pública. É preciso criar políticas de permanência estudantil.

 

O ponto de vista de uma estudante negra

Estudante do terceiro ano de jornalismo e ingressante na Unesp de Bauru pelas ações afirmativas, por ser negra e advinda de escola pública, Mariana Soares concorda que o número de jovens pretos no campus deixa a desejar e se posiciona contra ao tal do ‘racismo reverso’. “Apesar de Dear White People acontecer em um contexto americano, muitas coisas dela consigo ver no Brasil. Antes da série sair, houve um alvoroço, por acharem que ela seria um ataque aos brancos. Na verdade a série é muito mais um ponto de vista do que os negros passam na universidade” – explica a estudante.

 

Mariana conta que quando está na sala de aula e olha ao seu redor, vê poucos estudantes negros. (Foto: Wesley Anjos)

Podemos perceber que há alguns desafios para Mariana no ambiente acadêmico. Ela conta que sente uma sensualização excessiva da mulher negra: “Eu já vi a mesma pessoa chegando numa amiga minha branca pra conversar sobre cinema e assuntos mais sérios e, ao mesmo tempo, a pessoa, quando chegou em mim, mandou um: ‘Tá afim de colar lá em casa. O que nós duas temos de diferente além da cor da pele?”.

E os relatos da jornalista em formação vão além. Ela revela que percebe uma preferência pelas garotas brancas por conta dos rapazes nas festas. “As pessoas até se relacionam com a gente, mas sinto que as coisas não passam de um âmbito raso. Sinto que as pessoas são desconstruídas o bastante pra ficarem com negros, mas não são desconstruídos o suficiente pra namorarem negros e pra apresentarem negros como namorados”.

 

A série trata também do relacionamento amoroso entre uma moça negra e um moço branco. (Foto: Netflix – Divulgação)

 

Na pele

Eis que após terminar de maratonar Dear White People, vi-me fortemente tocado. Agora, com o ponto de vista de Mariana, muitas feridas expostas vieram à tona. De fato, sinto que as pessoas realmente não se veem namorando uma pessoa negra. Falo das experiências que tive até hoje.

Mariana e eu, assim como a personagem Samantha White, interpretada por Logan Browning, notamos a questão do colorismo tratada na trama. Sim, somos pardos. Há até quem não nos reconheça como pretos. Seriamos menos negros por isso? Falando por mim, reconheço que tive alguns privilégios por conta disto até aqui. Todavia, não foram poucas as vezes que senti na pele a discriminação.

 

Samantha tem um programa de rádio no qual faz a sua militância. Ele traz o mesmo nome da série: Cara gente branca. (Foto: Netflix – Divulgação)

O que dizer sobre ser seguido pelos vigilantes de um shopping por estar de bermuda e chinelo? Ou sentir-se observado dentro do mercado? Vi muitos jovens brancos fazerem o mesmo. Engraçado… Eles eram estilosos e despojados. Já, eu… Bom…Aparentemente, poderia ser um potencial marginal.

Esta questão vai além. O que dizer sobre quando, nas vezes que as pessoas me apontaram um rapaz que consideram bonito, quase sempre, se tratava de um branco? Por que será que os “musos” são sempre rapazes brancos? Além disso, como ator, já fiz alguns castings para personagens que queria muito. Não havia descrição alguma da cor deles no roteiro. Por algum motivo, foram dados a atores brancos. Pensar que foram mais talentosos do que eu ajuda a amenizar a dor. Mas são tantas coincidências, não é mesmo?

 

Lionel Higgins, interpretado por DeRon Horton, vive o dilema ser negro e gay. (Foto: Netflix – Divulgação)

Há nove anos eu raspei o meu cabelo por conta de bullying, assim como o personagem Lionel Higgins. Hoje, deixei-o crescer novamente para seguir em frente. Embora o meu cabelo não seja tão crespo quanto o dele, certos comentários foram suficientes para ferir a minha autoestima. Identifico-me também com o personagem por também ser homossexual.

É um tanto triste ler coisas do tipo “Não curto negros”, na descrição de certos caras em aplicativos de pegação. Assim como a fetichização excessiva por parte de outros chega a incomodar em certos momentos. Nunca cheguei a ter um relacionamento sério. Inclusive, desconfio que os outros rapazes não me veem como alguém para namorar, apenas para situações momentâneas.

Também sou cotista. Entrei na Unesp por me autodeclarar pardo e vir de escola pública. Às vezes só queria poder fazer como a Samantha e soltar a voz. Se tivesse esta chance, diria: “Cara gente branca, não sou melhor e nem pior do que você. Também mereço estar aqui”.

Carol Oréfice

Jornalista em formação. Determinada, focada e teimosa. Ama escrever sobre histórias impactantes, Netflix e filmes em cartaz. Aprendendo novos formatos e gêneros de escrita. Não consegue parar um minuto.

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