“É uma cidade de forças ocultas”, diz Majô a respeito da política bauruense

Ex-vereadora tratou ainda de temas como PCdoB e a Guerrilha do Araguaia

Colaboração,
por Bruno Sisdelli, Felipe Mateus, Matheus Fontes e Mirela Dias
Discentes do 7º Termo de Comunicação Social-Jornalismo da FAAC/Unesp

Esse foi o comentário de Maria José Majô Jandreice (59) durante a entrevista concedida no dia 23 de abril sobre a política em Bauru. A ex-vereadora falou sobre o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e a Guerrilha, a história política bauruense e ainda fez um panorama da situação política atual local. 
Majô Jandreice é natural de Cabrália Paulista, cidade de 4.300 habitantes na região de Bauru. Formou-se em Serviço Social pela Instituição Toledo de Ensino (ITE) e foi a primeira mulher eleita para a Câmara bauruense, em 1992. 
Filiada ao PCdoB, Majô foi vereadora por 16 anos seguidos (1993 a 2008). Participou do atual governo como secretária da Educação, cargo para o qual foi nomeada pelo prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) no início de seu mandato, em 2009. Não chegou a completar um ano na Secretaria, sendo demitida por Agostinho e substituída por Vera Casério no final do mesmo ano. 
A assistente social é presidente do PCdoB de Bauru e líder do partido no legislativo. Leia abaixo algumas das opiniões expressas por Majô. 

História política de Bauru 

Ao analisar o cenário político em Bauru, Majô destacou que a cidade sempre se apoiou no setor de serviços públicos, calcada na ferrovia, crescendo assim de forma desorganizada sem quaisquer políticas públicas que atendessem à demanda local. A ruptura política veio quando Edison Bastos Gasparini (PMDB) foi eleito, em 1982, para prefeito e, assim, de acordo com a ex-secretária de Educação, rompeu com a tradição política das famílias Franciscato e Coube, segmentos próximos ao governo de João Batista Figueiredo. 
Em seu único ano de mandato, Gasparini ficou marcado por trazer pessoas de fora para compor o governo a fim de promover uma maior participação popular nas decisões majoritárias. Com isso, a política bauruense “ferveu” com o processo de abertura da época, promovendo um boom de políticas públicas (melhoria nos hospitais, escolas e núcleos habitacionais). Com o seu falecimento, o vice José Gualberto Martins Angerami, conhecido como Tuga, assumiu o cargo até o fim do mandato. 
Em 1988, Antonio Izzo Filho foi eleito o novo prefeito. Segundo Majô, sua forma de governo foi caracterizada como populista com o propósito de frear as forças políticas impostas pelo governo anterior. O mandato sofreu com a baixa arrecadação da cidade e foram nítidas as dívidas acumuladas na prefeitura. Em seu lugar, entrou o candidato Antônio Tidei de Lima (PMDB). 
Em um período marcado pela criação do Plano Real, o prefeito não teve sucesso nas questões econômicas de Bauru e sua administração foi responsável, segundo a entrevistada, pela maior dívida do município, além de a cidade ter sido atingida por uma onda onda de privatizações, das quais ela cita a CESP e a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. 
A próxima eleição trouxe Izzo Filho no cargo de prefeito e, de acordo com Majô, o segundo mandato é uma “derrocada” política e econômica de Bauru. Foi um momento de tensão em que houve cassações, como a do prefeito e de diversos vereadores, diminuição nas arrecadações e, em meio a essa crise, muitos problemas foram deixados sem condições de resolução. Com o prefeito cassado, Nilson Costa assumiu e seguiu um período de maior equilíbrio no governo, como avaliou a ex-vereadora. 
Nas eleições de 2004, Tuga Angerami volta ao poder. A líder do PCdoB em Bauru analisa esse momento como um governo mais parado em que houve pagamento de dívidas dos governos anteriores. A gestão sofre com a falta de créditos e, apesar do panorama governamental, a cidade cresce devido à interferência privada. 
Em 2008, Rodrigo Agostinho é eleito e, com ele, chega um novo momento de ruptura na história política de Bauru – os investimentos são retomados e a prefeitura recupera finanças. Embora Rodrigo tenha trazido melhorias à cidade, Majô critica a gestão por não combater a especulação imobiliária e não fortalecer a indústria, deixando que a base econômica da cidade continue no setor de serviços. 
A ex-vereadora comenta que Rodrigo se diferencia por ser uma figura na política bauruense que garante seu apoio e popularidade por si mesmo. Ele conta com grupos políticos que compõem seu governo e com figuras da vida pública bauruense, mas, de um modo geral, sua presença na política é solitária. Apesar desse destaque na carreira de Agostinho, ela critica o prefeito, considerando que ele “não dá conta de responder aos anseios políticos e resolver tudo o que ainda está pra resolver”. 
Majô considera também que a Câmara atual é acanhada. Não existem grupos que façam oposição no legislativo hoje em dia. Para ela, o único membro que exerce oposição é o vereador Roque Ferreira (PT). “Talvez o Marcelo Borges também faça oposição, mas é uma oposição de direita. Então realmente você não encontra uma oposição dentro da Câmara”, comenta. 
O PCdoB e a Guerrilha do Araguaia 
O PCdoB é um dos partidos mais antigos do Brasil. Criado em março de 1922, segue os ideais de Marx, Engels e Lênin e esteve presente em diversos movimentos revolucionários da história brasileira, como grandes greves na década de 50, lutas camponesas armadas e a Guerrilha do Araguaia de 1960 a 1975. Essa participação rendeu um grande número de filiações ao partido que ganhou notoriedade e acabou sendo visto como uma ameaça pelo governo, culminando na sua proibição durante a Ditadura. Um dos grandes marcos na história do PCdoB é a resistência antiditatorial em resposta ao regime militar durante a década de 60 e meados de 70. 
O Golpe Militar de 1964 significou, além do fim da liberdade de expressão dos cidadãos do País, o início de um período marcado pela perseguição maciça aos opositores do regime ditatorial. Neste sentido, o Brasil ficou restrito à força de dois partidos políticos – a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), a qual representava os interesses conservadores dos militares, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que atuava como oposição ao regime. 
O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) passou a ser considerado, assim como os demais partidos existentes na época (exceto a ARENA e o MDB), ilegal, através da outorgação do Ato Institucional n.º 5 (AI-5), em 1968, no governo do General Artur da Costa e Silva. 
Em uma realidade marcada pela “efervescência dos movimentos populares”, que podem ser exemplificados pela Guerra do Vietnã, movimentos revolucionários na Europa (Primavera de Praga, Maio de 68 na França), os militares decidiram tomar medidas de repressão contra partidos e membros da linha opositora, como prisões, perseguições e o exílio de figuras importantes. 
Mesmo assim, as forças de resistência (uma delas o próprio PCdoB) seguiram organizando movimentos de oposição como forma de manifestar sua insatisfação ao panorama político no País. Entre o fim da década de 1960 e 1975, o PCdoB realizou o primeiro grande movimento de resistência até então contra o regime militar – a Guerrilha do Araguaia. A região norte do Brasil, por onde corre o rio Araguaia, foi considerada a ideal pelo partido para o início de uma revolta popular, já que era habitada em grande parte por garimpeiros, caçadores e camponeses explorados por grileiros locais. 
A vegetação extensa ajudava a oposição a esconder os políticos perseguidos pelo governo ditatorial. De acordo com Majô, em 1967, os primeiros guerrilheiros começaram a chegar à área para iniciar a preparação da guerrilha armada. Já no começo dos anos 70 havia diversos militantes, em sua maioria estudantes, na área entre Xambioá e Marabá. Entre eles estavam os irmãos Petit – Jaime, Lúcio e Maria Lúcia. 
A partir de 1972, o Exército se instalou na região da Serra dos Carajás e começou as investidas contra os guerrilheiros. A operação perdurou até 1974, com o extermínio dos últimos líderes da resistência e, no ano seguinte, foi considerada encerrada com a repressão contra a população local. 
Deram-se como desaparecidos muitos dos envolvidos na Guerra do Araguaia. Os restos de Maria Lúcia Petit foram achados em 1991 e reconhecidos em 1996 – foi a primeira vítima da guerrilha a ser identificada. Majô conta que foi ao enterro aqui em Bauru e se emocionou ao ouvir as palavras de Dona Julieta, mãe dos irmãos Petit. Julieta disse que era muito triste ter perdido três filhos para a causa e só ter um corpo para enterrar. 
Depois da Guerra do Araguaia, o PCdoB ainda participou ativamente da campanhas das Diretas, Fora Collor e a Marcha dos 100 mil pelo Brasil (relativa ao pedido de CPI sobre o papel do FHC na privatização das teles). Em 1985, o Partido volta à legalidade e hoje tem uma participação efetiva no cenário político brasileiro com 18 Deputados Estaduais e com o Ministro do Esporte, Orlando Silva. Ao analisar a importância do Partido, Majô diz que “o PCdoB não é apenas uma entrada do comunismo no país, é um partido que construiu o caminho do comunismo no Brasil”. 

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