Fragmentado, até onde vai a ficção?

Da redação do SICOM-PET, Victória Rangel

Fragmentado é um filme de M. Night Shyamalan, diretor de O Sexto Sentido (1999) e Corpo Fechado (2000). Lançado nos cinemas brasileiros no dia 23 de março deste ano, Split, nome original em inglês, conta com a atuação brilhante de James McAvoy, o senhor Tumnus no filme As crônicas de Nárnia (2005) e o professor Xavier de X-men: primeira classe (2011).

Outra atriz que contribui para a fluência da narrativa é Anya Taylor-Joy que, assim como fez ao protagonizar o suspense A bruxa em 2015, cativa a atenção do expectador no papel da adolescente excluída Casey Cook.

 

Cena de James McAvoy e Anna Taylor-Joy

 

Casey é uma das jovens raptadas por uma das personalidades de Kevin, personagem de McAvoy, que sofre de Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI) e assume comportamentos distintos conforme diferentes alters dominam seu corpo.

 

Sua atuação alcança níveis tão altos que são raras as cenas em que precisamos nos esforçar para identificar qual personalidade está dominando o corpo de Kevin naquele momento. McAvoy muda o tom de sua voz e incorpora novas expressões faciais para indicar que uma nova personalidade está assumindo. Dentre os 23 alters que “moram” no protagonista, os que mais se evidenciam são o de Dennis, um homem com obsessão por limpeza, Barry, estilista afeminado, Hedwig, uma criança de 9 anos e srta. Patrícia, mulher de ares maternos que veste saia e saltos altos.

 

Srta Patrícia assumindo o controle do corpo de Kevin, Imagem Divulgação

 

Os pioneiros no cinema

Não é a primeira vez, entretanto, que o transtorno é retratado nos cinemas. Em Psicose, clássico cult da década de 60, Norman Bates é uma personagem que enfrenta problemas familiares e sofre com o distúrbio. Outro filme que se trata de TDI é Sybil, lançado em 1976 com inspirações no livro homônimo de Flora Rheta Schreiber, cuja narrativa acompanha o desenvolvimento e os percalços que a protagonista enfrenta por possuir o transtorno e apresentar mais de dez personalidades em seu corpo.

 

Sybil
Cartaz do filme Psicose

Para Elisabeth de Faria, psicóloga formada pela Universidade São Marcos em São Paulo, “A divulgação desta doença pode ajudar, desde que demonstre que são identidades que foram existindo como mecanismo de defesa do indivíduo para se proteger. ” Como se evidencia em Fragmentado, Kevin sofreu experiências traumáticas na adolescência, foi vítima de bullying e era espancado pela mãe por causa da bagunça que deixava em sua casa (o que justifica a obsessão por limpeza que Dennis apresenta).

 

“Todos têm que esperar sentados, e Barry decide quem deve ficar na luz” – Hedwig

Como é explicado em uma das sessões psiquiátricas que o protagonista frequenta, as personalidades enquadram-se em uma hierarquia para “roubar a luz” da consciência do corpo onde vivem. Dennis é o alter mais temido e as outras personalidades evitam que ele assuma o comando por possuir hábitos sombrios e ser a personalidade responsável pelo sequestro que introduz a história do filme.

Ficção necessária ao suspense

A história de Fragmentado não é, por sua vez, extremamente fiel à realidade. A psiquiatra que cuida do caso de Kevin, dra. Fletcher, personagem interpretada por Betty Buckley acredita em possíveis modificações químicas no corpo dos pacientes com TDI que poderiam colocá-los em um patamar sobrenatural da humanidade. A prenuncia de uma Besta de comportamentos primitivos e uma estrutura física quase animalesca que surgiria de mutações no corpo de Kevin como sua 24ª personalidade é responsável por grande parte do suspense que prende o espectador ao longo do filme.

 

 

A psicóloga Elisabeth de Faria conta que isto não ocorre em pacientes com o Transtorno Dissociativo de Identidade e afirma que “a má divulgação da doença pode atrapalhar o tratamento do transtorno”.

O filme, ainda assim, mostra uma realidade da luta de pacientes que sofrem com transtornos mentais. A psiquiatra de Kevin não recebe o devido espaço para falar deste transtorno em que é especialista, mas afirma que, apesar de ter perdido muitos pacientes para o sistema, hoje, as pessoas estão acreditando mais na existência do TDI.

 

Kevin e dra. Fletcher em uma de suas consultas psiquiátricas

 

Adaptando conteúdos relevantes para uma sucessão de cenas tensas, Fragmentado é uma obra-prima da carreira do diretor, apesar de não seguir o esquema de reviravoltas que permeia as outras produções de Shyamalan. O final reserva uma pequena surpresa que indica que uma continuação está por vir. O diretor confirmou, em visita ao Brasil para a divulgação de Fragmentado, que já está trabalhando nela e pretende relacioná-la com seu clássico de 2002, Corpo Fechado.

Daniele Fernandes

Daniele curte filmes e séries cult, e quando diz cult quer dizer coreano ou comédia romântica de Hollywood. Possui profundo conhecimento em economia, sabendo administrar suas famílias no The Sims 4.

Deixe uma resposta