“Greve para quê?” – conquistas recentes do Movimento Estudantil na Unesp

Unesp Marília em greve. (Foto: TV Tem/Reprodução)

Da redação Sicom-PET , Pedro Maziero

 

A greve enquanto tática de luta para a obtenção de reivindicações de classes trabalhadoras e estudantis é alvo frequente de discussão – amplamente entendida sendo um “último recurso”, é raro que haja uma concordância significativa quanto à sua eficiência.

Quem apoia o movimento grevista vê a necessidade de radicalização das lutas, muitas vezes corroborada por resgastes históricos que evidenciam que tentativas de negociação oficiais, burocráticas e lentas raramente rendem frutos concretos. Do outro lado, pesa o fato de que a greve, mesmo quando bem-sucedida na obtenção de suas pautas, é sempre seguida também de outras consequências inconvenientes – calendários atrasados, formaturas postergadas, intercâmbios inviabilizados ou até mesmo semestres perdidos.

O conceito de greve implica uma maior mobilização por parte das categorias que a compõem, consograda na máxima de que “greve não é férias”. Frequentemente, no entanto, não é o que ocorre na prática, e movimentos esvaziados e com articulação falha tendem a perder sua força. Análises de conjuntura política e econômica também são essenciais na definição de qual é a tática de luta mais adequada ao contexto em que o movimento se insere, e são frequentemente negligenciadas.

Apesar de tudo, conquistas passadas evidenciam o potencial transformador de uma mobilização com greve.

Em um resgate histórico recente da luta estudantil na Unesp, vemos que até 2013 as greves eram esparsas, ocorrendo com maior frequência em campi específicos. A partir daquele ano, no entanto, a luta se intensificou, e hoje vivemos a terceira grande greve da universidade nesse curto intervalo de tempo.

Aquela que marcou essa intensificação do movimento foi também a que rendeu mais conquistas.

 

Conquistas da greve de 2013

 

Reitoria ocupada em 2013. (Foto: Mobiliza Bauru/Divulgação)
Reitoria ocupada em 2013. (Foto: Mobiliza Bauru/Divulgação)

 

Com a greve de 2013 se deu a criação da Comissão Permanente de Permanência Estudantil (CPPE), que é o único órgão da Unesp que é composto de forma paritária entre membros das três categorias – técnico-administrativos, docentes e discentes. A CPPE é responsável por promover uma discussão perene sobre os temas concernentes à permanência estudantil, como as moradias e os restaurantes universitários.

Também foi graças ao movimento que se deu a derrubada do Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Paulista (PIMESP), proposta do governo estadual que estabelecia a implementação de “cotas” socio-econômicas e raciais no ensino superior público paulista. No entanto, o PIMESP na verdade intensificava a segregação desses segmentos, pois em suas diretrizes, tornava obrigatório os ingressantes na Universidade através dessas “cotas” passassem por um “curso preparatório semi-presencial” com dois anos de duração, para só então iniciarem a graduação.

Em resposta houve muita discussão e problematização da proposta, e a Unesp acabou sendo a única das três universidades estaduais paulistas a adotar um sistema de cotas efetivo, realmente inclusivo, sem um vínculo com as diretrizes do programa do governo, já em 2013. Em 2018, a implementação do projeto estará completa e 50% das vagas da Universidade serão reservadas aos cotistas.

Por fim, à época teve-se a garantia de que toda a demanda por bolsas-auxílio seria atendida no ano seguinte e, a um nível de campus, a multa cobrada no atraso na devolução de livros emprestados da biblioteca foi extinta.

 

Mobilização 2016

 

Trailer do documentário “USP 7%”, produzido em 2015 e que aborda a questão do racismo estrutural e a necessidade de cotas na Universidade.

 

O movimento de 2016 ainda caminha a passos lentos na Unesp – a primeira reunião de negociação a ser realizada com os diretores do campus de Bauru deve acontecer no dia 18/07. Uma reunião anterior, em 07/07, contou apenas com a presença do diretor da FEB – FAAC e FC foram representadas pelos vices, e não houve avanços significativos nas negociações.

A nível estadual, no entanto, a mobilização já rende frutos: após 47 dias de ocupação na reitoria, a Unicamp se comprometeu com a construção de mais um prédio para a moradia estudantil, com 600 novas vagas, além da ampliação em 10% da quantidade de bolsas-auxílio ofertadas.

Também na Unicamp foi aprovada a proposta de cotas para estudantes negros e indígenas no programa de pós da Faculdade de Educação. A luta segue, no entanto, para que a conquista se estenda à graduação e às demais faculdades – a reivindicação por cotas é também a principal pauta da USP, junto com as políticas de permanência estudantil.

 

Quer saber mais sobre as pautas oficiais do Movimento Estudantil? Clique aqui.

 

Wesley Anjos

Jornalista em formação, escritor e ator nas horas vagas. Típico amante das artes, é viciado em fabular e beber mate, não necessariamente nesta ordem.

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