Hollywood, José Mayer e as relações de gênero

Casey Affleck recebe o prêmio de Melhor Ator.  (Clevver News – Reprodução)


 

“Sentir que sua fala pode não ser levada em consideração faz com que muitas mulheres ocultem suas dores físicas e psicológicas e se calem”, diz Profa. Dra. Luciana Klanovicz especialista em Estudos de Gênero e História


Da redação SICOM-PET, Michelly Neris Alves

 

O Oscar  mais uma vez foi marcado por polêmicas, na edição desTe ano um dos assuntos mais comentados foi a premiação de Casey Affleck como Melhor Ator por “Manchester À Beira-Mar”. A discussão girava em torno do fato do ator ter sido acusado de assédio sexual em 2010 pela cineasta Magdalena Gorka e pela produtora Amanda White e, mesmo assim, sua carreira e seu prestígio pareciam não ter sido abalados por essas denúncias.

Esse não é um caso isolado, denúncias de assédio e violência contra a mulher, geralmente, têm pouco impacto na carreira de homens. Johnny Depp, por exemplo, foi acusado por sua ex-esposa Amber Haerd de agressão física e verbal no ano passado, porém isso pouco afetou a carreira do ator que continuou participando de grandes franquias como “Animais Fantásticos e Onde Habitam” e “Piratas do Caribe”.

 

Johnny Depp e Amber Heard. (Foto: Suzanne Plunkett/ REUTERS)

 

Luciana Klanovicz explica que “no caso de atores ou empresários famosos, existe toda uma rede que trabalha para ‘limpar’ a imagem desgastada deles. Infelizmente, têm sido bastante eficientes nestes apagamentos. As dores das mulheres parecem ser mais facilmente esquecidas e as falhas dos homens mais rapidamente perdoadas”.

Além disso, é comum que haja desconfiança na fala de mulheres que denunciam casos de assédio ou agressão. No caso de Johnny Deep, Luciana destaca que “a aproximação dada inicialmente é de negação, depois de descrédito por se tratar de um ídolo para muitas pessoas, cuja conduta não ‘coincidiria’ com as acusações”. Ainda assim, ela destaca que existe uma questão cultural por trás dessa situação: “A fala da mulher, na denúncia, é costumeiramente desqualificada como uma premissa verdadeira de primeira mão. É necessário muito esforço para convencer a mídia e a sociedade que a mulher sofreu violência. Não é pouco comum a exigência de provas físicas como hematomas ou vídeos que atestariam a versão da mulher agredida”.

 

 

No final do ano passado uma entrevista com o diretor Bernardo Bertolucci sobre o filme “O Último Tango em Paris” veio à tona e chocou Hollywood. Na entrevista, o diretor admitiu que a cena de estupro contracenada por Maria Schneider e Marlon Brando tinha sido planejada apenas com Brando e que não teve o consentimento total da atriz.

Apesar desse caso só ter ganhado repercussão agora, Schneider já havia declarado em 2007 que se sentiu abusada por Bertolucci e Brando. “Aqui temos uma dupla voz autorizada: a do diretor do filme e a do homem que fala. É uma fala reconhecida. O caso é exemplar em demonstrar que a fala dela não gerou o mesmo impacto, mesmo sendo ela a agredida e violentada. Como se as pessoas assimilassem a agressão somente depois da admissão dele, a fala dela ficou, até então, difusa”, explica Luciana.

Esse tipo de situação contribui também para o silenciamento de muitas mulheres “O processo de falar sobre o assédio, o estupro e o assédio sexual é sempre traumatizante para a mulher. Sentir que sua fala pode não ser levada em consideração faz com que muitas mulheres ocultem suas dores físicas e psicológicas e se calem. Elas são sempre julgadas durante o processo, suas falas, suas atitudes, suas convicções são sempre tomadas em suspeita como se elas tivessem de alguma forma provocado ou instigado reações de violência ou de assédio”.

 

 

José Mayer como Tião em “A lei do amor”. (Foto: Estevam Avellar/ TV Globo)

 

Aqui no Brasil, o ator José Mayer foi acusado de assédio sexual pela figurinista Susllem Tonani. Depois de ter denunciado o caso dentro da Rede Globo e não ter obtido resposta, a figurinista publicou um texto no blog #agoraquesãoelas da Folha e gerou uma enorme discussão nas redes sociais.

O discurso inicial do ator foi de que “As palavras e atitudes que me atribuíram são próprias do machismo e da misoginia do personagem Tião Bezerra, não são minhas”. Encontramos nessa fala uma certa semelhança com o caso de Bertolucci, pois para se justificar o diretor afirmou que queria a reação de Schneider como mulher e não como atriz e que a decisão foi melhor para o filme. “Deslocar o assédio para uma ‘atividade’ vinculada ao trabalho não os exime da culpa que ambos carregam. É a semântica sendo utilizada para tornar uma grave agressão em uma temática possível de ser ‘compreendida’ por se situar na esfera do campo do ator/diretor.”

Nesse caso, podemos ver todas as etapas já citadas, o descrédito na fala da mulher, inicialmente, e o reconhecimento do ocorrido somente depois da confirmação do agressor. Mas depois de uma intensa mobilização de funcionárias da Globo e pressão do público, o ator se desculpou e foi afastado temporariamente.

Por fim, Luciana disse que espera que um dia questões de assédio e violência de gênero sejam parte do passado. “Para que isso aconteça precisamos mudar nossas práticas, rever nossas condutas e nossas certezas, para então tornar o país (e o mundo) seguro para todas as mulheres”.


 

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Wesley Anjos

Jornalista em formação, escritor e ator nas horas vagas. Típico amante das artes, é viciado em fabular e beber mate, não necessariamente nesta ordem.

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