(IN)Visibilidade Lésbica

Cover of Spring Fire, o primeiro romance lésbico de paperback, de Vin Packer (Marijane Meaker) 1952 


 

Da redação SICOM-PET, Julia Cortezia

 

Casais de mulheres ainda são muito raros no cinema – os filmes com a temática homoafetiva, principalmente em sua origem, têm sua maioria restritos a homens gays. A maior representação das lésbicas no audiovisual é ainda muito recente, entretanto, essa visibilidade é muito questionada, já que apresenta uma série de ideias problemáticas enraizadas dentro da sociedade, e acabam por refletir nas obras.

A retratação das lésbicas no cinema pode ser observada dentro de certos moldes. As situações em que as encontramos não são representativas: mulheres se envolvendo sexualmente como maneira de diversão e como uma aventura acabam por tirar o crédito de que mulheres podem se envolver física e emocionalmente de verdade. Thamires Motta, estudante de Jornalismo e lésbica, acredita que os estereótipos e a fetichização é muito marcante nesse sentido, “esses parecem ser os ingredientes principais de diretores e roteiristas na hora de construir personagens lésbicas, o que de certa forma acontece porque a visão da sociedade é assim”.

A ideologia dentro de um contexto patriarcal em que vivemos, no qual os homens  sempre tiveram mais privilégios do que as mulheres, tem que o sexo só existe com a penetração do pênis. Dessa forma, o sexo lésbico retratado nas obras audiovisuais só é validado ao se mostrar de maneira a satisfazer o olhar do homem. E dentro disso, ainda existe a padronização das atrizes que são escolhidas para interpretar os papéis, geralmente brancas e magras, que é consequência tanto da objetificação do corpo da mulher quanto aos padrões de beleza impostos desde sempre.

 

 

Um dos filmes atuais mais marcantes que retratou com protagonismo um casal lésbico, “Azul é a cor mais quente”, é adaptação de uma HQ e foi lançado em 2013, ganhando a Palma de Ouro no Festival de Cannes. O drama retrata a história de Adèle, uma jovem que está descobrindo sua sexualidade e se apaixona por uma mulher mais velha e lésbica, Emma. Mesmo o relacionamento das duas sendo retratado no filme com naturalidade e mostrando certos aspectos interessantes, o filme dirigido por Abdellatif Kechiche foi alvo de críticas por conter cenas longas e, talvez, desnecessárias de sexo. A autora da HQ Julie Maroh também apontou críticas em relação à produção do diretor e a falta de visibilidade presente no filme.

 

Cena do filme “Azul é a Cor Mais Quente”, com Adèle Exarchopoulos interpretando Adèle e Léa Seydoux como Emma. (Quat’sous films – Divulgação)

 

Sendo difícil encontrar mulheres lésbicas em filmes e séries, quando são encontradas, muitas vezes sofrem esse olhar fetichizado que não contempla as relações reais. Sobre isso, Débora Amarante, estudante de Engenharia Elétrica e bissexual exemplifica: “A forma como a série adolescente Glee reproduz a fase inicial do relacionamento entre duas personagens é extremamente sexualizada. Isto interferiu diretamente na forma como as relações entre duas mulheres se constituíram durante esta fase da minha vida”. Thamires acrescenta que a imagem construída das lésbicas parte muito mais da pornografia do que de produtos audiovisuais, “basta jogar “lésbicas” no Google para perceber isso”. 

Ela afirma ainda não se sentir representada com as obras cinematográficas existentes hoje. Mas em algumas séries, ela encontrou alguns pontos positivos: “Em The L Word e Orange Is The New Black, por retratar mulheres em suas particularidades e especificidades sem exagerar no roteiro para parecer algo inexistente. Em alguns momentos nessas séries eu consegui, sim, me enxergar em momentos da minha vida, o que configura uma pequena representação”. Já Débora declara outra obra que a marcou: “Gostei muito do episódio San Junipero da série Black Mirror. Me tocou muito o fato de mulheres lésbicas só se permitirem viver sua orientação sexual num ambiente além do real, depois de tanto tempo”.

 

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É necessário enxergar a questão das lésbicas em relação ao direito das mulheres, uma vez que toda mulher ainda é considerada como objeto sexual e de satisfação ao homem. Assim, o que era pra ser algo positivo pra visibilidade do L em LGBT, acaba sendo mais uma reprodução errônea de ideias que reforçam muitos preconceitos da sociedade. 

 

Surgimento dos homossexuais no audiovisual

 

Por muito tempo, a condenação da homossexualidade por parte da sociedade foi muito radicalizada dentro do cinema. Em 1934, com a adesão da Igreja Católica, a MPAA (Motion Picture Association of America) adotou o Código de Hays, um documento que estabelecia regras e proibições às produções cinematográficas de acordo com o que se julgava “bom costume”. Claro que dentro dessa lista existia a censura, mesmo que não de forma direta, para a representação de relações e personagens homoafetivas. Essa, entretanto, poderia ser usada se seguisse a convenção de que não teriam um final feliz: essa imposição pessimista representaria que os desejos dessas personagens eram proibidos, e assim, só levariam a desgraça. 

Hoje, não podemos dizer que isso já teve fim. Ainda existe uma lei da MPAA que condena certas medidas em filmes, mas ainda assim, a maior visibilidade dos homossexuais começou em 1960 com os movimentos sociais e lutas pelos direitos civis. Para as mulheres, se torna ainda mais significativo com o fortalecimento do movimento feminista. Os filmes em questão que começaram a surgir nessa época com temáticas voltadas ao LGBT eram reduzidos aos independentes, mas o aumento de personagens lésbicas ainda é muito recente, e não foi consolidada de maneira representativa como já visto. 

 

Cena do beijo entre as personagens de Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg. (TV Globo – Divulgação)

 

No Brasil, o surgimento desses filmes com temática central também são datados recentes. Uma das tentativas de visibilidade das lésbicas foi a representação do casal lésbico dentro da novela Babilônia (2015), exibida na Rede Globo. Por ser uma rede muito popular no Brasil e conservadora em diversos sentidos, a relação do casal foi tratada de maneira sutil. Mas ainda assim, a decisão de televisionar o beijo entre Teresa e Estela acabou por levar a queda da audiência e rejeição e estranheza por parte do público. 


 

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Wesley Anjos

Jornalista em formação, escritor e ator nas horas vagas. Típico amante das artes, é viciado em fabular e beber mate, não necessariamente nesta ordem.

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