Laerte-se: um documentário que trata da transgeneridade sem tabus

O longa-metragem tem 1 hora e 40 minutos de duração. (Netflix – Divulgação)  


 Formada em Audiovisual e transexual, Vitória G. traz os seus apontamentos sobre a produção da Netflix


  Da redação SICOM-PET, Wesley Anjos   Ausência de narração e foco em diálogos de entrevistas… Seria esta a melhor descrição da estética adotada pela jornalista Eliane Brum na direção do documentário Laerte-se. Como o nome bem sugere, o longa traz um panorama da vida da quadrinista Laerte Coutinho. Foi um baita de um choque para muitos quando Laerte assumiu não se identificar com o papel de gênero masculino. Não é nada fácil ter que explicar aos 57 anos que, na verdade, é uma mulher, não é mesmo? Ainda mais quando se trata de uma pessoa muito prestigiada e admirada publicamente pelo seu trabalho.   Dadas estas informações, percebemos que os planos para o conteúdo da produção foram audaciosos, embora não se possa dizer o mesmo da simplicidade da fotografia. As inserções de trechos de quadrinhos de Muriel, personagem trans criada por Laerte, ajudam a conduzir o longa e a compensar alguns problemas da captação de imagem das entrevistas.   Além da vagina Formada em Audiovisual pelas Faculdades Integradas de Bauru e transexual, Vitória G. conta sobre a admiração que adquiriu por Laerte após assistir ao documentário. No caso, a cartunista não passou pela cirurgia de mudança da genitália. “Ela não precisa fazer a cirurgia para se definir como mulher. Eu tive isso até na sentença dada no meu caso. Eu queria fazer a cirurgia, mas eu não precisaria fazer a cirurgia totalmente invasiva no meu corpo. Ela tá certíssima e tem que se mostrar como ela é” – aponta Vitória.  

Quadrinho da personagem Muriel. (Desenho: Laerte Coutinho)

  Quando viu o longa, Vitória conta que logo pensou em outras narrativas audiovisuais a respeito dos dilemas de Laerte. “Me remete a outros filmes como Transamérica e Laurence Anyways. São narrativas sobre trans que passam pela transição quando já têm uma família formada. Quando você faz a transição mais tarde, eu acho que você passa por uma preparação. Poder dizer ‘eu sou mulher, quero me olhar no espelho e me sentir bem comigo mesma’”.


Laerte trata a nudez com naturalidade e mostra que a construção do gênero feminino supera questões meramente físicas. (Netflix – Divulgação)

Vitória, assim como a psicanalista e especialista em gênero pela UERJ Letícia Lanz, prefere não se prender aos rótulos tradicionais no que refere às dicotomias homem/ mulher e cisgênero/ transgênero. Aliás, Lanz foi uma das palestrantes convidadas para o evento 3º Transtornar o olhar: Transcrever e (re)existir que ocorreu na Unesp de Bauru. Em conformidade com as teorias que defendem rótulos como construções sociais, Letícia Lanz não busca se colocar em nenhuma classificação. E tal como Laerte, já tinha uma família constituída quando passou pela transição. Transição esta que ocorreu aos 50 anos, com 3 décadas de casamento e 3 filhos.

(Foto: Lucas Pontes – Divulgação)

Logo, Laerte-se é um documentário que tem tudo para ser enriquecedor e elucidar questões referentes à percepção de uma mulher trans dentro da sociedade. Vale a pena conferir a ótica escolhida por Eliane Brum na construção narrativa.

Daniele Fernandes

Daniele curte filmes e séries cult, e quando diz cult quer dizer coreano ou comédia romântica de Hollywood. Possui profundo conhecimento em economia, sabendo administrar suas famílias no The Sims 4.

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