Memória Sertaneja Preservada

Ponto de Cultura “Clube da Viola” existe há 22 anos e é a casa do “caipira” de Bauru

Colaboração,
por Laura Luz, Renan Simão, Felipe de Oliveira Mateus e Gabriela Brandão
Discentes do 7º Termo de Comunicação Social-Jornalismo da FAAC/Unesp

Apresentação do Clube da Viola no Poupa Tempo de Bauru
Movida pela paixão da cultura sertaneja, a música de viola tem seu lugar reservado na cultura de Bauru. O Clube da Viola é um projeto de preservação e difusão da cultura sertaneja que existe há 22 anos e está inserido na Rede de Pontos de Cultura do Ministério da Cultura desde 2011, quando essa iniciativa do Governo Federal para fomento à cultura popular contemplou esse e mais 10 projetos.
“Fizemos com que os violeiros que estavam escondidinhos reaparecessem sem medo de serem rejeitados”, explica Tião Carneiro, fundador e presidente do Clube da Viola. A equipe do clube faz o que começou com Tião há duas décadas: catalogar e noticiar cantores sertanejos, encontrosde violeiros, divulgar a cidade de Bauru, organizar atividades como a Orquestra da Viola e divulgar notícias, como a nota de falecimento do violeiro Zé Goianoem setembro último.
Dezenas de grupos sertanejos e violeiros estão compilados no blog do Clube da Viola, sejam em forma de vendas de discos originais, divulgações de encontros, agendas, homenagens póstumas ou mesmo um arquivamento de informações sobre quem eram e quem são essas pessoas que contribuíram e contribuem para a cultura “caipira” de Bauru, como classifica Tião.
“Realizamos também nossas oficinas de viola, violão, ensaios do Grupo da Catira, do Coral e da Orquestra de Viola”, conta Miguel Carneiro, responsável pelas atividades da Catira, dança folclórica típica da cultura tradicional de algumas regiões do interior do país, que também faz parte do projeto. Dentre essas atividades que estão incluídas no Projeto “Acordes da Viola”, apoiado pelo Projeto Ponto de Cultura do Ministério da Cultura e da Secretaria Municipal de Cultura de Bauru acontecem também apresentações com duplas
de violeiros e o Projeto “Acordes da Viola”. Miguel destaca que com a verba do Governo Federal recebida após a contemplação do projeto como Ponto de Cultura (R$ 180 mil ao longo de três anos), “a estrutura de oficinas e shows foi melhorada, as despesas de viagens e alimentação são pagas com a verba, estamos formando novos violeiros, e mantemos um site e uma rádio na internet, a Saudade Sertaneja.”
O grupo tem encontros mensais, algumas ocasionais, e ensaia toda quarta-feira, o que, segundo Tião sempre leva a uma pequena reunião semanal. Antes funcionando nas dependências do Centro Social Urbano (CSU) do Bairro Bela Vista, o Clube da Viola, que já fora retirado do local pelo diretor José Carlos de Oliveira, deve retornar ao Centro, segundo Tião Carneiro, com nova gestão. O projeto está para conseguir ainda uma sala nas dependências do Clube Malha Santa Izabel, por intermédio da Secretaria de Esportes de Bauru.
Conheça o programa Pontos de Cultura
Os Pontos de Cultura compõem a série de ações previstas pelo Programa Nacional de Cultura, Educação e Cidadania, o Cultura Viva, criado pelo Ministério da Cultura (MinC) em 2004 com o objetivo de estimular e fortalecer no país redes de criação e gestão cultural, com base nos Pontos de Cultura.
A proposta dos Pontos de Cultura não é a de criar novos projetos, mas de potencializar iniciativas culturais já existentes, por meio de adequação de espaços físicos, aquisição de equipamentos, realização de cursos e oficinas, entre outras ações.
Para a instalação de um Ponto de Cultura, são feitos convênios entre o governo federal e os estados ou municípios, para a formação de redes. A partir disso, o poder responsável por essas redes publicam editais, nos quais os diferentes arranjos produtivos de cultura podem se inscrever.
Além do Clube da Viola, Bauru tem outros nove Pontos de Cultura instalados por meio de convênio entre a Prefeitura Municipal e o MinC. São eles: CIPS, Cine Clube “Aldire Pereira Guedes”, Instituto Cultural Olorokê, ONG Periferia Legal, Instituto Cultural Aruanda, AcaêAlfa, Instituto Acesso Popular, Casa da Esperança e Instituto Inácio de Loyola/Família de Nazaré. Eles foram contemplados pelo edital lançado pelo município em 2010. Além destes, a cidade também conta com o Instituto Cultural Yauaretê, Ponto de Cultura fruto da parceria entre o Ministério e a Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.
A Cultura Caipira
“Caipira” é um termo de origem indígena usado desde a época colonial brasileira para se referir aos filhos mestiços de portugueses com as índias nativas, especialmente na capitania de São Vicente (cujo território abrangia o que atualmente é território de São Paulo e Minas Gerais). Na verdade, apesar da origem forte – quase todos os sinônimos de caipira (capiau, matuto, caboclo) são de origem tupi e guarani – a cultura e o universo criado em torno dessa palavra se afastaram muito de sua origem.
O caipira que se conhece hoje em dia – esse tipo ruralizado, desconfiado, com trejeitos humildes e dialeto próprio – se formou, a partir da miscigenação cultural indígena negra e estrangeira, assim como a própria cultura brasileira. Ao contrário do que o estereótipo criado pela mídia, o caipira não é um pobre ignorante avesso à higiene como o Jeca Tatu de Monteiro Lobato. Entrando um pouco mais nesse universo, descobre-se outras representações desse tipo social, como caipira preto velho e a mãe preta, homenageados na música de Tião Carreiro e Pardinho; o caipira branco, jeca fruto de miscigenação criado pelo famoso cineasta brasileiro Amácio Mazzaropi; a caipira cuja figura é posta em oposição aos processos de urbanização, como o personagem Chico Bento do quadrinista Maurício de Souza.
Essa cultura tão rica e peculiar acabou ficando marcada com uma imagem depreciativa de ignorância e retrogradismo. Como diz o especialista em mídia e sociedade, Cláudio Bertolli, “se você quer xingar uma pessoa no interior, não precisa chamar de idiota, usar palavrão… é só chamar de caipira”. Ele explica que uma pessoa não aceita ser comparada a um caipira porque ter essa imagem se tornou inaceitável.
Na contramão desse tipo de pensamento, existem várias iniciativas para a defesa da cultura regional em várias cidades do interior de São Paulo, como Campinas, Presidente Prudente e Piracicaba. Há quatro anos o sociólogo, advogado e autor do livro “Mazzaropi: Jeca do Brasil”, Glauco Barsalini, pede ao Ministério da Cultura o reconhecimento dessa cultura como patrimônio imaterial. “A consciência sobre a nossa própria história e o primeiro passo para a conquista da cidadania”. Ele defende que é preciso operar uma mudança de mentalidade, para que passem a enxergar a cultura caipira como parte da cultura brasileira, ver o capiau e seu universo com outros olhos; um olhar de respeito.
Equipe Clube da Viola
Tião Camargo, (Presidente),
Miguel Carneiro (Responsável pela Catira),
Nair da Nóbrega (Diretora Artística e responsável pelo Coral),
Benedito Botelho (Tesoureiro),
Jotha Camargo (Conselho Fiscal e responsável pelo transporte e instalação dos equipamentos de som),
William Niza (Secretário) e Teodoro (Vice-Presidente).

Deixe uma resposta