Moonlight: um contraste entre sobrevivência, homofobia e pobreza

Fruto da adaptação da peça  In Moonlight Black Boys Look Blue de McCraney, o longa é dirigido por Barry Jankins.  (Plan B Entertainment – Divulgação)

 


O filme traz a infância, adolescência e vida adulta de Chiron, um rapaz negro que precisa enfrentar os percalços da vida de frente  


 

Da redação SICOM-PET, Wesley Anjos

 

Vencedor do Oscar de melhor filme, melhor roteiro adaptado e, de quebra, com a premiação de Mahershala Ali como melhor ator coadjuvante, Moonlight, ‘Sob a luz do luar’ em tradução livre, aposta na representação de uma realidade nua e crua. Diferentemente de outras produções que concorreram como melhor filme, Moonlight não teve um orçamento tão grande, tampouco teve uma arte ultra rebuscada. O seu grande trunfo é a força da sua narrativa.

Dividido em três fases, a trama traz a história de Chiron, inicialmente vivido por Alex Hibbert. Logo de cara nos deparamos com uma criança esguia e de poucas palavras, apelidada de ‘Little’, o que remete à sua pequenez. Perseguido pelos outros garotos devido ao seu jeito diferente de ser, até aí ele não tem a menor ideia do que signifique ser “boiola“, como é chamado. 

 

As relações do filme ganham complexidade ao passo que o menino faz amizade com o traficante do bairro, o mesmo que vende drogas para a sua mãe. Aliás, Mahershala não ganhou o Oscar à toa. Ele consegue dar vida à figura de um traficante pluridimensional. Ao mesmo tempo que é durão devido ao seu ofício, é sensível o bastante para perceber a sexualidade de Chiron, respeitá-la e tratá-lo com carinho.

Na segunda fase, Ashton Sanders assume o papel como o adolescente que está no auge do sofrimento por ser vítima de discriminação e homofobia, ao passo que precisa lidar com uma mãe viciada. É um momento intenso. Ele não é abertamente gay e finalmente lida com a descoberta do amor e, posteriormente, da vingança.

 


Ashton Sanders como Chiron. (Plan B Entertainment – Divulgação)

 

Vale ressaltar que a sua condição social é um dos traços que tornam o filme interessante. Vemos aqui um garoto negro e gay que precisa encarar uma vida sem oportunidades. Qual o preço da sobrevivência? Como reagir ao ódio de pessoas a quem você não fez nada? Por que você é odiado por ser quem é? São muitos os dilemas…

Mas, se estamos falando de dilemas, com a passagem de anos e a chegada da última fase, na qual o personagem é encarnado por Trevante Rhodes, concluímos que a vida é imprevisível, ainda mais para quem está à mercê da violência e da pobreza. Teria Chiron se tornado aquilo que por muito tempo repudiou?

 

Trevante Rhodes como Chiron na terceira fase. (Plan B Entertainment – Divulgação)

 

Nesta última fase, o grande destaque do filme é a sutileza. Sim, sutileza. Trocas de olhares e uma carga profunda de serenidade bastam para dizer muita coisa quando Chiron reencontra Kevin (André Holland), o seu amor do passado. Há, inclusive, muita doçura na forma de dizer muito com poucas palavras. Não percamos de vista que aquela criança, embora não seja mais esguia, mesmo na fase adulta, segue calada.

‘Moonlight – Sob a luz do luar‘ é uma produção que vale muito a pena ser assistida. Traz muita reflexão do começo ao fim e, sem sombra de dúvidas, é extremamente marcante para quem já sentiu a dor de Chiron na própria pele… e também para quem não faz ideia do que é sentir o que ele sente.


 

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Wesley Anjos

Jornalista em formação, escritor e ator nas horas vagas. Típico amante das artes, é viciado em fabular e beber mate, não necessariamente nesta ordem.

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