Mulheres, o gênero jornalístico

Laura Fontana Novo, do III Seminário Internacional Gênero, Sexualidade e Mídia, em Bauru

E lá estavam todos os jornais, as rádios, a televisão. A moça, retratada na última temporada do campeonato regional como a “dona do chute potente” ou até como “tão forte quanto um homem”, sempre se pareceu com os rapazes. Ou ao menos era a imagem que as pessoas tinham dela, reforçada pelas manchetes e subjetividades da mídia que, sacana, aproveitava o bafafá e traçava um quadro curioso de suspeitas quanto à sexualidade da atleta. Eram fotos, relatos e até uma entrevista com um senhor borracheiro da rua em que a moça morava lá pelos seus 12 anos de idade.

Desta forma, toda a imprensa costurava o assunto, a cidade inteira comentava e perguntava, invertendo a famosa marchinha de carnaval: “será que ela é?”

Agora, no laboratório da sala de imprensa, repórteres, fotógrafos, curiosos e fofoqueiros se espremiam e murmuravam, ansiosos pelo resultado do teste de feminilidade a que ela havia sido submetida, para que pudesse, enfim, jogar em paz. Antes disso, contudo, ela já havia recebido as devidas instruções de sua comissão técnica e até dos advogados e assessores: no último semestre, ela deixou o cabelo crescer, se apresentava aos jogos usando batom e um par de brincos delicado, com um short bem apertado (um número menor que o seu) e fora das quadras posava para as fotos ao lado de rapazes bronzeados e sarados.

Depois da transformação, a moça já não se parecia muito com a garota musculosa que usava as calças surradas e que urrava com as companheiras de equipe a cada lance espetacular orquestrado pelo time.

E o resultado do teste saiu: “parece mas não é!” estampou a primeira manchete online. Finalmente ela havia se libertado das perguntas e pressões cotidianas e dos boatos jornalísticos que surgiam todos os dias. Seu alívio foi maior ainda quando voltou a usar com tranquilidade o calção largo para treinar e cortou os cabelos bem curtinhos – comentou com a colega de dormitório “que já não aguentava mais aquelas madeixas compridas”.

Os filtros estabelecidos por meio da mídia repercutem os discursos dominantes sobre as coisas do mundo – e dentre eles, o discurso que dita como ser um homem ou uma mulher, fornecendo ou retirando valor das novas conformações de gênero que aparecem na contemporaneidade. A historieta da moça da liga regional é um dos diversos exemplos da hegemonia de discursos, já que na narrativa, os meios de comunicação precisavam dizer aos seus leitores se ela podia ser mulher “apesar” das aparências contraditórias.

Uma data importante, o 1º de setembro de 1970, em Nova York. Centenas de mulheres marcharam na 5ª Avenida, cobrando equidade de gênero e direitos das mulheres no 50º aniversário da 19ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos. (Desenho por María María Acha-Kutscher)
Uma data importante, o 1º de setembro de 1970, em Nova York. Centenas de mulheres marcharam na 5ª Avenida, cobrando equidade de gênero e direitos das mulheres no 50º aniversário da 19ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos. (Desenho por María María Acha-Kutscher)

Quando as mulheres se desvirtuam do papel feminino é comum que sejam retratadas como vis e que a violência física e emocional contra elas se torne evidente a fim de reafirmar o comportamento esperado de cada um dos gêneros biológicos. Por exemplo, à medida em que a demanda pelos direitos das mulheres se tornou publicamente perceptível, aumentaram também as retaliações sociais sobre as mulheres que lutavam cotidianamente para que a demanda fosse atendida.

A atenção pública nos meios de comunicação e sua relação com as (des)igualdades de gênero não é recente. Na IV Conferência Mundial sobre a Mulher, quando houve a adoção da Declaração e Plataforma de Ação de Pequim (1995), destacou-se a importância reduzida que as organizações midiáticas atribuíam  às questões de gênero. No contexto europeu, a Estratégia do Conselho da Europa para a Promoção da Igualdade de Gênero (2014-2017) incentiva a veiculação de conteúdos jornalísticos que promovam a igualdade e a participação equilibrada de mulheres e homens nas organizações midiáticas, nomeadamente em posições de tomada de decisão.

No Brasil, como forma de defender a igualdade de gênero, a ação #AgoraÉQueSãoElas ocupou durante toda esta semana os espaços tradicionalmente reservados aos homens em diversos veículos de comunicação do país. As mulheres provaram, por meio de textos maravilhosamente combativos, que não são elementos tangenciais e que, sem elas, não há maioria legítima. O sucesso da iniciativa comprovou o já imaginado: se ansiamos pela transformação, devemos tomar como nossa a responsabilidade de, juntos, progredirmos na agenda pela mudança. Mulheres – e homens – com valores feministas presentes nos meios de comunicação social são agora mais vitais do que nunca.

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