Novos resultados da CPMI Vegas indicam relação entre Cachoeira e Demóstenes

Inquérito divide opiniões entre membros da Polícia Federal, oposição e governo

Colaboração
por Amanda Pioli, Felipe Mateus, Luciana Fraga
Discentes do 7º Termo de Comunicação Social-Jornalismo da FAAC/Unesp 



Pouco mais de um mês depois da instalação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga as práticas criminosas desvendadas pelas operações Vegas e Monte Carlo, da Polícia Federal (PF), ainda há divergências entre parlamentares, polícia e Ministério Público em relação aos rumos da apuração. 
O depoimento dado pelos delegados da PF, Raul Alexandre Marques e Matheus Mella Rodrigues, ao Conselho de Ética do Senado no último dia 15 de maio reafirmou a proximidade entre o empresário Carlos Augusto de Almeida Ramos, conhecido como Carlinhos Cachoeira, e o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO). 
A PF descobriu indícios das relações entre Demóstenes e Cachoeira pela primeira vez durante a Operação Vegas, iniciada em 2008 sob o comando de Raul Marques. A operação investigava o vazamento de informações secretas sobre ação da polícia contra a exploração de jogos de azar na cidade de Anápolis, em Goiás. Por meio de gravações telefônicas, a polícia descobriu que o senador havia contratado servidores fantasmas em favor de Cachoeira. Em setembro de 2009, a Procuradoria-Geral da República interrompeu as investigações. 
Em 2010, o promotor de Anápolis, Bernardo Boclin, iniciou as investigações que deram origem à Operação Monte Carlo, também destinada a combater a exploração de jogos de azar em Goiás. De acordo com o promotor, as investigações não se utilizam de dados obtidos durante a Operação Vegas. A polícia acumulou 416 gravações, cerca de mil horas de ligações telefônicas. A operação culminou na prisão de vinte e oito pessoas no dia 29 de fevereiro de 2012, entre elas Carlinhos Cachoeira e dois policiais federais. 
As investigações que levaram à prisão de Cachoeira e à descoberta de suas relações com o senador Demóstenes Torres e outros políticos serviram também para acender faíscas entre a PF e o Ministério Público. A polícia reclama da interrupção da Operação Vegas pela Procuradoria-Geral da República em setembro de 2009. No entanto, de acordo com a procuradoria, foi a própria polícia que pediu que não fosse aberto inquérito contra o senador. No dia 14 de maio, a PF emitiu uma nota oficial afirmando que não pediu à Procuradoria-Geral da República que a operação fosse interrompida ou que o caso não fosse levado ao Supremo Tribunal Federal. 

Oposição dividida 

A CPMI Vegas teve uma sessão complicada no último dia 17. Na sessão administrativa, em que foi decidida a convocação de 51 pessoas e 36 quebras de sigilo, também foi possível perceber uma cisão dentro dos partidos de oposição. 
Mesmo que a oposição concorde em focar na Delta Construções, empreiteira do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e uma das principais acusadas do caso, outros pontos da investigação ainda geram discordância. Enquanto os deputados Fernando Francischini (PSDB-PR) e Carlos Sampaio (PSDB-SP) votaram a favor da quebra de sigilo da empresa apenas na região Centro-Oeste, os senadores Álvaro Dias (PR) e Cássio Cunha (PB), também do PSDB, votaram para que a quebra se estendesse a todo o país. Os deputados que votaram a favor apoiaram a decisão do Governo desde que, em seguida, fosse votada a quebra de sigilo da construtora no restante do país e de seu ex-presidente, Fernando Cavendish. No entanto, a estratégia não foi bem sucedida, já que essa votação foi adiada para junho. 
A base aliada do governo chegou a comentar a divisão da oposição. Segundo o deputado Silvio Costa (PTB-PE), mesmo em menor número, a oposição deveria ter votado contra a quebra de sigilo restrita ao Centro-Oeste, como forma de marcar oposição. 

 “Doa a quem doer” 

Depois de quase um mês de instalação, a CPMI Vegas passa por um período que pode ser decisivo com o depoimento de Cachoeira. Embora seu pronunciamento seja importante para as investigações, seu advogado já declarou que o cliente irá se abster das perguntas dos deputados e senadores. Além de estar presente na CPMI, o empresário também irá depor como testemunha de defesa de Demóstenes no Conselho de Ética do Senado. 
Sobre a condução do inquérito, o relator da CPMI, Odair Cunha (PT-MG), declarou que as investigações não seriam influenciadas por interesses partidários. “Nós temos que analisar o que realmente existir de provas, de indícios, e a partir dessas provas ou indícios, produzir uma investigação que pode atingir A ou B. Essa é uma questão que nós não temos controle. A partir dos indícios, produziremos uma investigação doa a quem doer”, afirmou. 
Em contraposição, Silvio Costa afirmou que não concorda com os rumos da investigação. “Vossa Excelência não consegue convencer a uma criança de três anos que essa Delta não tem que ter seu sigilo aberto em todo o país”, declarou o deputado. 

(Colaboraram: Ana Cláudia Tripoloni, Brunara Ascêncio, Bruno Sisdelli, Camila Franzoni, Lucas Gandia, Mariane Bovoloni, Matheus Fontes, Mirela Dias, Odelmo Serrano e Tainá Goulart) 

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