O Lattes além da plataforma

Da Redação PET-RTV,

Brasil: uma nação conhecida pela riqueza natural, pelas festividades acaloradas, além da recepção de seu povo. Mas quando o assunto é Brasil não podemos deixar de lado o fato de o país ser o berço de personalidades ilustres, cujas importâncias ultrapassam as páginas dos livros de História. Personalidades que muito contribuíram para a divulgação das raízes brasileiras para as demais nações do globo e também colaboraram para a implantação dos sentimentos de integridade, nacionalismo e orgulho em cada brasileiro, os chamados anônimos que muito contribuem nesse processo embora pouco apareçam nos livros. 

A lista é extensa, a começar pelos áureos tempos de D. Pedro II e da Princesa Isabel, passando por Tiradentes e Santos Dumont, até chegarmos, porque não, ao ex-presidente Lula. No entanto, quando o assunto é Ciência, a lista não fica completa se não citarmos Cesar Lattes: um brasileiro que pintou a Ciência de verde e amarelo. 

Lattes, com apenas 23 anos, foi um dos descobridores da partícula atômica “méson pi”, o que provocou um avanço na física brasileira. Ganhou todos os prêmios importantes do Brasil, recebeu títulos especiais de países da América Latina, foi indicado para o Nobel e homenageado pelo CNPq ao ter o sobrenome utilizado em um sistema completo de acompanhamento e informação sobre o estado das pesquisas desenvolvidas no Brasil, o Sistema Lattes.

Curitibano, filho de imigrantes italianos, casado com Martha Siqueira Neto Lattes, pai de quatro filhas e avó de nove netos. Um brasileiro simples, dividido entre o lírico dos compositores Vivaldi e Villa-Lobos e o raiz da dupla caipira Pena Branca e Xavantinho, um gênio com defeitos e qualidades, amante de fotografias e dos suspenses do diretor Alfred Hitchcock e, segundo os colegas e familiares, muito autêntico em suas ações e amante da ciência. 
Vídeo: Vida e obra de César Lattes 

“A Ciência é irmã caçula da Arte. Talvez bastarda”.

A origem da família 

Se você procurar pelo nome Lates, com apenas um T, em um mapa da região limite entre a Espanha e a França vai descobrir que esse é o nome de um riozinho que no início do século XV deu origem ao nome judaico Lattes, agora com dois Ts. O nome fora atribuído às famílias de judeus sefaradins (judeus originários do oriente, mas abrangendo também os que viviam nos países mediterrâneos, da Península Ibérica, Sul da França, no Norte da África e dos países árabes, e também da Turquia e do Irã) após terem que saírem da Espanha e de Portugal sob decreto da Princesa Isabel e que para isso tiveram que atravessar o mencionado riozinho. 

O pai de Cesar Lattes, Giuseppe Lattes, era filho de casamento misto de judeu com católica. Seu avô paterno Davide (grafia italiana para David), era um italiano do Piemonte na região de Turim, trabalhava em um banco, a Banca Lattes que ainda hoje sobrevive com o nome de Casa Bancária, que havia herdado de seu pai. Com o trabalho, conseguiu criar excelentes condições de vida e casou-se com Adele Villavecchia, uma católica “pra frentex” que tinha tido duas filhas sem ter casado. Ela era filha de um chapeleiro e a família do pai das meninas, totalmente contra o casamento, era dona de grandes extensões de terra. 
O casamento só se concretizou quando o pai das crianças estava em leito de morte e a sua família acabou permitindo o casamento. Tempo depois, o avô de Cesar Lattes casou-se com a viúva, nascendo o primogênito Giuseppe.  A família mantinha forte laço de união. Quando o avô de Cesar Lattes morreu, sua avó, conhecida por ser mão-aberta, ficou com muito pouco dinheiro, e para cada filho só restou aquilo que dava justo para sobreviver. 
Em 1912, com dezenove anos de idade, Giuseppe Lattes decide vir para o Brasil e trabalhar em um banco na cidade de Curitiba, capital do Estado do Paraná. Dois anos mais tarde, veio a Primeira Guerra Mundial e a Itália queria se livrar dos austríacos que ocupavam a região nordeste do país. Muitos imigrantes italianos em Curitiba se mobilizaram, resolveram fretar um navio e lutar como voluntários. Giuseppe lutou na guerra como alpino, isto é, no destacamento que combatia tropas nos Alpes. 
A experiência como voluntário de guerra em solo italiano contribuiu para Giuseppe conhecer Carolina Maroni, uma italiana católica da região de Alessandra. Os pais de Carolina, Mansueto Maroni e Clotilde Ghiassa, possuem origem desconhecida, mas evidências levam a suspeita que teriam sido judeus convertidos no século XIX. A começar pelo sobrenome da família que aparece no dicionário Sefaradi de Sobrenomes, de autoria de Guilherme Faiguemboin, além do fato do Museu do Holocausto, em Jerusalém, trazer algumas vítimas na Itália e Áustria com o sobrenome Maroni em seu banco de dados do Holocausto. 
Mesmo com essa incerteza, Carolina precisou da autorização do Vaticano para casar-se com um judeu, passando a assinar Carolina Maria Rosa Lattes. A autorização teria sido concedida com uma condição: que os filhos fossem educados na religião católica. Os dois viveram juntos na Itália até 1921, quando Giuseppe resolveu voltar para Curitiba. Indícios apontam que a família residia em uma casa na Rua Sete de Setembro, no número 40, próxima da Praça Osvaldo Cruz. A casa hoje já não existe e em seu lugar há um posto de gasolina. 

Um Gênio precoce 

Foi no dia 11 de julho de 1924, sob o céu curitibano, que o ilustre Lattes sentiu pela primeira vez o ar brasileiro correndo em seus pulmões. Nascia aquele que seria um dos brasileiros mais conceituados no meio acadêmico. O garoto, segundo filho do casal de imigrantes, foi registrado como Cesare Mansueto Giulio Lattes, sob o nº 53997 no 1º Ofício de Registro Civil, também conhecido como Cartório Leão, em Curitiba, no dia 15 de julho de 1924. Logo na adolescência, o físico assumiria o prenome César, por sugestão da esposa. “Ninguém sabia pronunciar meu nome direito”, justificava o cientista.
César Lattes só seria batizado no cristianismo na adolescência, de catorze para quinze anos, na época em que Hitler e Mussolini subiram ao poder. Questionado sobre sua religião em uma entrevista concedida à repórter Renata Ramalho, da Revista Ciência Hoje de 1995, Lattes disse ser ao mesmo tempo católico apostólico romano, muçulmano e cristão ortodoxo — mas principalmente judeu. Ele não via nenhuma contradição nisso: “boa vontade é minha religião”, dizia. 
Lattes cursou o Ensino Primário e Fundamental, em 1929, no Instituto Menegati, em Porto Alegre, completando o Curso na Escola Americana, em Curitiba, de 1931 a 1933, após estudar, no ano de 1930, em uma Escola Pública de Torino, na Itália. Já o Ensino Médio, o chamado Ginásio, foi cursado no Instituto Dante Alighieri, em São Paulo, entre 1934 e 1938. Como era possuidor de grande habilidade na área de exatas, optou pela carreira de professor e ingressou, em 1939, na graduação de Física da Universidade de São Paulo (USP) pouco antes de completar dezesseis anos. O curitibano recebeu o Grau de Bacharel em Física, em 1943, pela então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da Universidade. 
A motivação de Lattes para o estudo da Física deveu-se a dois fatos. O primeiro vem de que, ao terminar o Ginásio, soube que professor tinha três meses de férias por ano, ao invés de um mês, como ocorria com a maioria das demais profissões. Isso o deixou bastante interessado. Segundo, Lattes inclinou-se para o estudo da Física devido ao incentivo que lhe deu seu pai Giuseppe e seu professor Luís Borello, que ensinava a disciplina Ciências Físico e Matemáticas no Dante Alighieri, além do jovem ver na Física e na Matemática uma rota alternativa às das matérias do tipo “decoreba” do Ginásio. 

Vídeo: Cientistas brasileiros: Cesar Lattes e José Leite Lopes

Na USP, encontrou no professor Gleb Wataghin a orientação para se iniciar na ciência. Wataghin era um fisico ítalo-russo, que veio a São Paulo em 1943 para montar o Departamento de Física da FFCL. Todos os preparativos para o encontro foram planejados por seu pai Giuseppe. Na FFCL, Lattes foi aluno de Marcelo Damy de Souza Santos, em Física Geral e Experimental; de Abrahão de Morais, em Física-Matemática; de Giácomo Albanese, em Geometria Projetiva; e de Wataghin e Guiseppe P.S. Occhialini, em disciplinas profissionais do Curso de Física. 
O funcionário do mês 
Lattes começou sua carreira como físico teórico, porém logo mudou de ramo e tornou-se experimentador, considerava a física teórica “uma calculeira danada”. Logo depois de formado, Lattes começou a trabalhar em pesquisa com Wataghin, Mario Schenberg e Walter Schützer, resultando desse trabalho três artigos publicados nos Anais da Academia Brasileira de Ciências, na Physical Review e também nos Anais da Academia Brasileira de Ciências. 
Em 1946, o Lattes partiu para a Inglaterra para unir-se ao grupo de pesquisadores liderados por Cecil Powell na Universidade de Bristol. O jovem pesquisador tinha uma bolsa paga pela companhia de cigarros Will e, conforme ele apontava, foi a partir desse momento que ele fez pacto com o tabagismo, o vício que o acompanhou até a morte. O pesquisador inglês estudava os efeitos produzidos por partículas subatômicas em determinadas chapas especiais denominadas emulsões fotográficas, diferenciadas das demais por serem mais espessas e sensíveis. Seu trabalho já passava a marca dos dez anos de pesquisa e a entrada de Lattes e Occhialini reanimou a pesquisa. 
Occhialini ficou responsável por conseguir emulsões mais densas. Lattes, encarregado de calibrar as novas emulsões, descobriu que, quando eram carregadas com bórax, um composto de boro, elas retiam o traço das partículas por mais tempo. No entanto, ele não se conformava com a baixa energia das partículas elaboradas em laboratórios e tinha o desejo de utilizar as chapas para detectar partículas mais energéticas presentes nos raios cósmicos vindos permanentemente do espaço exterior para a Terra. 
Foi nesse momento que, 1947 a 1948, Lattes iniciou a sua principal linha de pesquisa. A mais conhecida e importante contribuição de Lattes à física foi a sua participação na descoberta do méson pi em 1947. Foi aproveitando uma viagem de férias de Occhialini aos Pirineus que ele resolveu levar dois kits de chapas, um com o composto de bórax, outro sem, e expô-los à grande quantidade de raios cósmicos existente naquela região de elevada altitude. Os pesquisadores ficaram surpresos quando, ao revelarem as chapas, perceberam os diversos fenômenos ali registrados, em especial o traço de um méson que diminuía de velocidade e parava, originando um novo traço. 

O méson havia sido proposto alguns anos antes por um físico japonês, Hideki Yukawa, com o objetivo de explicar a força que mantinha o núcleo atômico unido. Hideki Yukawa propôs uma teoria para explicar as forças nucleares. Ele sugeriu a existência de uma partícula ainda desconhecida, com uma massa cerca de 200 vezes maior do que a do elétron, que poderia ser emitida e absorvida por prótons e nêutrons. A troca dessa partícula entre os constituintes do núcleo atômico produziria uma atração entre eles, de curto alcance, que poderia explicar a estabilidade nuclear. Por ter uma massa intermediária entre a do elétron e a do próton, recebeu o nome de “méson”. Em 1937-38, dois físicos (Anderson e Neddermayer ) detectaram algo parecido com os mésons propostos por Yukawa, no entanto o méson detectado podia atravessar centenas de núcleos atômicos sem serem absorvidos ou densintegrados.

Para obter maior número de dados, Lattes viajou para a Bolívia, e colocou no alto do Monte Chacaltaya, a uma altitude de 5.500 metros, várias emulsões nucleares. Nelas, foi possível encontrar cerca de 30 rastros de mésons duplos. Estudando esses traços, foi possível determinar a massa dos mésons e perceber que havia dois tipos de partículas, com massas diferentes. Lattes percebeu a importância de sua descoberta para a explicação do fenômeno e teorizou que a partícula secundária, já conhecida pelos estudos de Anderson e Neddermeyer, seria denominada de méson mi (atualmente, múon). O méson primário, mais pesado, era algo novo, desconhecido, mas que tinham fortes características da descoberta de Yukawa. Foi denominado méson pi, e sua identificação foi anunciada em outubro de 1947. Lattes havia encontrado as partículas responsáveis pelas forças nucleares.

Para Henrique Lins de Barros, pesquisador titular do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e amigo, a rotina de Lattes rompeu fronteiras. “O trabalho de Lattes ultrapassa a fronteira do Brasil e da América Latina. Ao descobrir o méson pi ele prova a existência de outras coisas no átomo do que simplesmente prótons e elétrons, o que abalou completamente o estudo da física da época. Lattes provou que era possível pensar ciência no Brasil”, exalta Lins de Barro. 
A existência dos mésons pi deu a Yukawa o Premio Nobel de Física de 1949, e a Powell o de 1950. Estranhamente não foram premiados Occhialini e Lattes. No entanto, eles pertencem a uma nova galeria – os Nobéis Injustiçados – da qual fazem parte nomes famosos na Física como Ludwig Edward Boltzmann, Lord Kelvin, Paul Langevin, Arnold Sommerfeld, Ernst Pascual Jordan, dentre muitos outros. 
Para o amigo e físico Alfredo Marques, faltou reconhecimento para a descoberta de Lattes, mas o próprio pesquisador pouco ligou para o não recebimento do Nobel. “Ele nunca batalhou ou montou “lobbies” para isso. Tampouco se queixava de não ter sido agraciado. Ironizava a situação dizendo que caso tivesse sido contemplado acabaria seus dias ao lado de uma escrivaninha assinando cartas de recomendações, o que detestava. 
O império de Lattes 
Depois do sucesso com os mésons pi, Lattes voltou ao Brasil para concretizar a idéia de criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro. Ainda em Berkley, o pesquisador havia comentado o projeto com Nelson Lins de Barro, irmão do Ministro João Alberto – um político influente na época. Em dezembro de 1948, Lattes, juntamente com o físico Leite Lopes, foi visitar, o qual prontamente concordou com a idéia e prometeu ajuda financeira. Para estruturar o CBF, Lattes contou com a colaboração dos físicos Elisa Frota Pessoa, Gabriel Fialho, Jayme Tiomno, Lauro Xavier Nepomuceno, além de Leite Lopes, e dos matemáticos Antonio Aniceto Monteiro, Leopoldo Nachbin e Francisco Mendes de Oliveira Castro. 
Para o físico e amigo Alfredo Marques, “fora dos domínios puramente científicos, Lattes foi um semeador de empreendimentos bem sucedidos, como o CBPF e o Instituto de Física da Universidade de Campinas, no Brasil, e o Laboratório de Física Cósmica em Chacaltaya, Bolívia. O Centro logo se destacou em âmbito internacional e teve importante contribuição para a formação do Instituto de Matemática Pura e Aplicada, a da Escola Latino-Americana de Física e o Centro Latino-Americano de Física. Em 1949, Lattes cria em La Paz, com a colaboração de colegas bolivianos, o Laboratório de Físicas Cósmicas. Em pouco tempo o Laboratório passou a abrigar importantes equipamentos e cientistas de todas as partes do mundo, sendo referência em pesquisas sobre a radiação cósmica. O Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas tornou-se o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) do governo brasileiro, e o Laboratório de Chacaltaya, hoje Laboratório de Física Cósmica, pertence à Universidad Mayor de San Andrés.
O amigo Henrique Lins de Barros também destaca que “a figura de Lattes teve um peso muito grande na sociedade, levando o Governo a olhar a Ciência de um modo diferente. Havia um vazio de estudos nessa área no país que acabava de sair de um pós-guerra”.

Vídeo: Homenagem ao físico Lattes
Depois de outra breve estada nos EUA de 1955 a 1957, Lattes voltou para o Brasil e aceitou uma posição no Departamento de Física da Universidade de São Paulo (USP) e ingressou para a Academia Brasileira de Ciências (ABC). Em 1967, aceitou a posição de professor titular no novo Instituto “Gleb Wataghin” de Física na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), o qual ele também ajudou a fundar. 
Um sistema para gerenciar uma base de dados sobre pesquisadores em Ciência e Tecnologia e para o credenciamento de orientadores no país foi desenvolvido pelo CNPq em parceria com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Em 1999, o CNPq decidiu homenagear Cesar Lattes emprestando o seu nome à base de dados. Hoje, a Plataforma Lattes reúne mais de 400 mil currículos de pesquisadores e estudantes brasileiros, ganhou prêmio e agora é internacional. Curiosamente, Cesar Lattes não cadastrou o seu curriculum vitae na base de dados que o homenageia. 
O ex-aluno e amigo de Lattes Edison Hiroyuki Shibuya aponta para o fato do trabalho do pesquisador ter criado uma nova área na Física, além de trazer benefícios para uma categoria. “Seu trabalho abriu um campo novo na área da física com a idéia das partículas elementares e com os raios cósmicos. A repercussão de seu trabalho permitiu a institucionalização da física, permitindo que o físico ganhe o status de profissional e não apenas de professor. 
O Lattes além da Plataforma 
Curitibano de nascença, mas carioca de coração. Atrás do jaleco de físico, havia um homem sensível, irreverente, simples e apaixonado pela natureza e pela família. Lattes casou-se com Martha Siqueira Netto Lattes e teve quatro filhas: Maria Carolina, Maria Cristina, Maria Lúcia e Maria Teresa. De acordo com as filhas, em um depoimento conjunto enviado por e-mail ao Portal Toque da Ciência, Lattes foi um pai muito carinhoso e muito dedicado à família, mesmo não participando muito do ambiente familiar. “Nosso pai, era uma pessoa de presença muito forte e bastante envolvida com a família durante toda sua vida. A seu modo era atento e carinhoso”, afirmam. 
Como pai, Lattes não media esforços para garantir o bem estar e criar condições para aprimorar os conhecimentos das quatro. “Ele valorizava imensamente a produção de cada uma das filhas, por mais prosaicas que fossem. Tudo era elogiado e usado com orgulho desde ensaios culinários a casacos de tricô”, acrescentam. Uma das paixões do físico era ouvir boas composições musicais brasileiras, principalmente música brasileira de raiz, algumas coisas da MPB e de peças eruditas, adorava cachorros, principalmente os da raça perdigueiro, os quais eram batizados com nomes de personalidades. Um vício o acompanhava desde a juventude: o cigarro. Lattes costumava dizer que a vida não tinha sentido sem o fumo e a bebida.

Um episódio curioso ocorreu em 1997, ano em que Gilberto Gil lançou o disco Quanta. Durante uma visita a Lattes motivada pela admiração, o músico pediu a ele que escrevesse uma apresentação que seria colocada no encarte do disco. O encarte foi feito, mas Lattes não dixou que o fotografassem devido a um comentário de Gil. O músico, minutos depois do pedido, declarou que havia feito o mesmo pedido a outra personalidade em um álbum anterior e que esta morrera três dias depois. Gil regravou também, no mesmo CD, o samba “Ciência e Arte”, feito por Cartola e Carlos Cachaça em homenagem a Lattes. A música foi o samba-enredo da Mangueira, escola vice-campeã do carnaval de 1947. 

Como revela o amigo Alfredo Marques, Lattes era um mestre na aplicação de apelidos. “Certa vez ele me pediu para chamar o “lagartixa”. Fui atrás do “lagartixa” sem saber quem era, pois se perguntasse Lattes teria respondido que eu não servia nem para levar um recado, ou qualquer provocação desse porte. Chegando no local, olhando para o rosto e o biótipo dos presentes, não tive dúvidas em identificá-lo: era o motorista da caminhonete do CBPF. 
Nos últimos anos de vida, o físico passou a ler com freqüência a Bíblia e demonstrava curiosidade sobre o que lhe seria reservado após a morte, questionando muitas vezes como seriam as coisas do “outro lado”. Outra curiosidade é que ele mantinha no escritório de trabalho, em sua residência, uma carta que teria sido psicografada por um médium e transmitida por Santos Dumont. 
Galeria de prêmios 

Este perfil de Lattes comprova porque ele é o físico brasileiro mais conhecido no Brasil. Prova disso, são os inúmeros títulos conquistados. Mas para Henrique Lins de Barros, o nome Lattes vai acabar caindo em esquecimento no Brasil, e os únicos culpados serão os próprios brasieliros. “Pelo fato de não termos no Brasil uma produção científica própria, de não termos muitos livros de Física escritos por brasileiros, acredito que o nome Lattes vai ser esquecido com o tempo. É um problema da cultura brasileira de não saber reconhecer o seu produto.”

No entanto, o amigo Alfredo Marques contesta e afirma que um trabalho como o de Lattes jamais poderá ser esquecido e que cabe a todos exaltar o tamanho de suas descobertas. “a trajetória de evolução da pesquisa científica no Brasil confere a Lattes a posição de pioneiro, desbravador, catalisador de novas oportunidades e principal fiador da qualidade que atingiu. Quanto a seu renome internacional, quem sobe tão alto na apreciação científica como Lattes subiu em função de sua descoberta, nunca reduz sua reputação”. 

Dentre as premiações recebidas, destacam-se o titulo de Doutor Honoris Causa outorgado pela USP, em 1948, recebido somente em 1964; o titulo de “Cavaliere di Gran Croce”, ardo Capitulari – Stellae Argentae Crucitae, em 1948; Prêmio Einstein, da Academia Brasileira de Ciências, em 1951; a Medalha de Ouro “Honra ao Mérito”, da Radio Nacional/ESSO, em 1951; o Prêmio Ciências, do Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura, em 1953; o Prêmio Ernesto Fonseca Costa, do Conselho Nacional de Pesquisas, em 1953; o titulo de Personagem do Ano, pelo Grêmio cultural Rui Barbosa, em 1961; a Ordem do Mérito Cultural, da União Brasileira de Escritores, em 1969; a Medalha Carneiro Felipe, do Conselho Nacional de Energia Nuclear, em 1973; o Prêmio Moinho Santista (SAMBRA) – Física, em 1975; os títulos de Doutor Honoris Causa e Professor Emérito, outorgado pela UNICAMP, em 1987, porém ainda não recebidos e, em 1987, o Award in Physics of Third World Academy of Sciencies, em Trieste, Itália. Além dessas honrarias, Lattes foi escolhido patrono e paraninfo de várias turmas de formandos; é nome de ruas e prédios públicos no Paraná e Rio de Janeiro 
Saiba mais: 
Se você se interessou e quer conhecer um pouco mais sobre a vida de Cesar Lattes, não deixe de conferir: 
1-) documentário Cientistas Brasileiros: César Lattes & José Leite Lopes, dirigido por José Mariani (Riofilme Documenta, 2003): o filme aborda a trajetória pessoal e profissional dos dois físicos brasileiros. 
2-) livro Descobrindo a estrutura do Universo (Editora Unesp, 2001): entrevista com César Lattes acompanhada de iconografia, cronologia e bibliografia, além da tradução do artigo de sua autoria – Meu trabalho em física de méson com emulsões nucleares – originalmente publicado em 1960; 
3-) página do Grupo de História e Teoria da Ciência da Unicamp sobre César Lattes e os 50 anos do méson pi, com acesso ao primeiro artigo de Lattes sobre mésons – http://www.ifi.unicamp.br/~ghtc/meson.htm
4-) página do Arquivo Central do Sistema de Arquivos da Unicamp, com breve história da vida e obra de Lattes, depoimentos de diversos cientistas, fotos e arquivo de notícias – http://www.unicamp.br/siarq/lattes/

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