O pedido de impeachment e a inconsistência política atual

A situação política é de tensão e governo Dilma, preocupado com as tentativas de impeachment e com a baixa popularidade, já partiu para o enfrentamento

Colaboração de Gabriel Dos Ouros para o SICOM-PET

A rejeição da presidenta Dilma Rousseff chegou a níveis críticos. Até pouco antes de sua eleição, a própria petista não deveria imaginar que sua impopularidade aumentaria tão rapidamente a ponto de colocar em dúvida o futuro de seu governo e até mesmo do próprio Partido dos Trabalhadores.

Se desconsiderarmos o ódio, muitas vezes incoerente e ignorante, presente nos discursos de antipetistas, há lógica na revolta. Após quase um semestre de implementação do ajuste fiscal, apostando-se numa ortodoxia econômica criticada pela própria Rousseff ao longo da campanha presidencial, percebe-se um grande esforço de contenção do crescimento do gasto, embora tal empenho não tenha sido suficiente para, em um contexto de forte recessão, reverter a tendência de piora do resultado primário das contas públicas. Além disso, os recentes lançamentos de projetos visando à retomada da economia não pareceram estimular uma reação significativa do mercado. A falta de investimentos do empresariado faz com que a situação assuste os que se preocupam com a recuperação do país e alegra os que torcem para o fim do governo PT.

(Foto: AFP)
(Foto: AFP)

Aos poucos, o desemprego aumenta e a renda diminui, isso aliado ao corte de investimentos sociais em educação, pesquisa e à restrição dos direitos trabalhistas (Pátria Educadora? Partido dos Trabalhadores?), contribui para o aprofundamento da crise política e econômica que o nosso país está passando.

Apesar das dificuldades em reverter a dívida pública e evitar que o Brasil perca o grau de investimento, o governo federal anunciou bons planos, como o Plano Safra, o Plano Nacional de Exportações e o Programa de Investimento em Logística que, apesar de terem sofrido algumas críticas pontuais, trazem propostas que poderiam ajudar a transformar o cenário econômico nacional. No entanto, nenhum desses programas conseguiu um respaldo vultoso na mídia ou na sociedade (vale refletir sobre a relação de dependência estrutural que esses setores mantêm, o que, na conjuntura atual, prejudica uma discussão mais ampla e clara sobre a situação do país). Tal situação levanta o debate sobre a falta de credibilidade do governo e a necessidade de se pensar em alternativas que garantam ao partido o apoio de quem já o deu no passado. A presidenta Dilma, em abril de 2012, após dois anos de governo, tinha aprovação pessoal de 79% da população brasileira – maior índice já registrado pelo Ibope, superando os 58% de Lula e os 70% de FHC – e apenas 17% desaprovavam seu jeito de governar; hoje, o índice de reprovação do governo Dilma é de 71% – o maior da história do Datafolha, superando os 68% de Collor.

Plano Safra incentiva agricultura familiar e a produção de alimentos saudáveis para o Brasil (Foto: folha press )
Plano Safra incentiva agricultura familiar e a produção de alimentos saudáveis para o Brasil (Foto: folha press )

Esses fatores por si só já são preocupantes, mas o pior de todos esses aspectos é a falta de discussão acerca do modelo político que queremos para o nosso país. O que se discute hoje na maioria dos espaços é o impeachment da presidenta e a proposta de tirar o PT do poder de uma vez por todas. Mas para colocar o que no lugar? Um modelo neoliberal, com algumas políticas sociais, de eficácia duvidosa? Ou o problema é o sistema político que precisa ser mudado?

(Imagem: brasil.gov)
(Imagem: brasil.gov)

Não há interesse por parte da grande mídia em levantar debates construtivos, muito pelo contrário. A mídia tradicional se aproveita dessa situação delicada do país para tentar manter sua posição hegemônica (em ritmo decadente), ignorando em grande medida a diversidade sociocultural existente e as potencialidades territoriais brasileiras, e motivando a opinião pública – de forma seleta, é claro – a se rebelar. É inevitável dizer: o problema também é do próprio PT que, ao conseguir chegar na presidência e ter uma base congressista maior e mais fiel, manteve muitas políticas econômicas criadas por seus antecessores, mesmo com as críticas históricas do partido, e nunca estimulou um debate sério sobre a regulação e/ou regulamentação da mídia no Brasil, coisa que já acontece em alguns países, de formas diferentes, como nos Estados Unidos e no Reino Unido.

É evidente que os poderes desses conglomerados midiáticos são limitados, o público consumidor desses jornais está caindo e as redações estão se enxugando… Os motivos ainda não são claros, mas é evidente que isso preocupa os empresários – que optam por reduzir conteúdos para não diminuir seus lucros. O sensacionalismo parece ser mais presente, provavelmente para chamar atenção de determinados setores da sociedade, de preferência os que detém poderio econômico para consumir esses produtos. A rádio Jovem Pan, por exemplo, agora conta com Rachel Sheherazade e Reinaldo Azevedo em sua equipe de jornalistas, que pronunciam opiniões bastante agressivas ao PT em seus programas, ganhando maior popularidade entre os ouvintes paulistanos. A Globo, que historicamente é crítica ao PT, agora adota um discurso mais favorável – talvez por ter percebido que o impeachment não seria viável para a empresa. Isso ilustra bem a relação entre economia e política e expõe o jogo de interesses sustentado pela mídia tradicional.

A desigualdade ainda está diminuindo no Brasil, diferente da maior parte do mundo, mas essa divisão do bolo está ficando cada vez menor, como se não houvesse mais fôlego por ter que, agora, enfrentar interesses do capital financeiro – tarefa ainda mais difícil com a presença do oligopólio na comunicação.

A crise é clara, e é importante termos em mente que esses momentos são extremamente frutíferos para a construção de uma nova perspectiva. Mas diante de todos esses entraves, o resultado da crise pode piorar a situação da população mais necessitada e injustiçada. Reitero que a desigualdade no mundo está aumentando. É tempo para agir conscientemente, mas o que verificamos é uma massa de manobra que, até agora, funcionou muito bem para aqueles setores que detêm os meios de produção.

Enquanto Dilma critica veementemente o “vale-tudo” na política para atingir o governo com a justificativa de que essa atitude prejudica apenas o povo, e Cunha, com toda sua influência no Congresso, aposta no desgaste da presidenta com a aprovação das “pautas-bomba”, o Senado parece mais determinado a ajudar na superação da crise. E o povo assiste ao drama digno de filme sem poder intervir de forma efetiva na política ou ser ouvido por políticos, num sentimento letárgico que torna-se angustiante.

(Foto: DCM)
(Foto: DCM)

O sistema de democracia representativa vigente no nosso país não funciona mais. Além de não corresponder à velocidade das demandas buliçosas de vários segmentos da sociedade por melhorias, já é evidente que possui deficiências. As redes sociais estão cada vez mais presentes e colaboram para a difusão da informação, além de seu potencial democrático por permitir o comentário, a opinião. A insatisfação popular cresce, mas a impressão é que poucas pessoas estão dispostas a discutir e pensar numa alternativa política. Enquanto a discussão sobre a reforma política seguir sem participação popular, a concentração da mídia continuar existindo e o governo se mantiver fraco, a realidade de um futuro mais justo e igualitário se torna cada vez mais distante.

Abaixo, programa partidário do PT exibido na televisão aberta no dia 06/08. O vídeo tem duração de 10 minutos e aborda a crise econômica e política que o país vem enfrentando.

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