OPINIÃO: A Cura, um Scorsese não tão bom

A Cura, de Gore Verbinski, diretor de Piratas do Caribe, é um filme classificado nos gêneros suspense e fantasia, mas será que é só isso?

 

Da redação Sicom-PET, Victória Rangel

 

A história passa-se, essencialmente, em um hospital misterioso nos Alpes Suíços, para onde o protagonista Lockhart viaja a fim de levar Pembroke, um membro de sua empresa, de volta a Nova York para fechar uma transação. Lockhart, interpretado por Dane DeHaan (o Harry Osborn de O espetacular Homem-Aranha 2) é um típico homem de negócios, daqueles que mascam chicletes de nicotina e tem a mãe internada em um asilo.

É aqui, logo no começo, que uma possível crítica ao atual mundo comercial capitalista fica perdida. O diretor até tenta, mas, ao que tudo indica, dá preferência para contemplar a história do spa/asilo suíço, que também possui um passado macabro, como se descobre ao longo da narrativa.

Lockhart, que pretende passar na Suíça apenas as horas necessárias para a saída do CEO do hospital, é acometido por um acidente de carro em uma cena de tirar o fôlego. A ocorrência, envolvendo um animal silvestre, força o protagonista  a ficar em recuperação no estabelecimento, onde torna-se um dos pacientes mais novos entre os idosos que buscam a cura neste lugar.

 

Lockhart sofre um acidente – disponível no facebook oficial do filme

 

O caso especial

É lá nos alpes suíços que Lockhart conhece Hannah (Mia Goth), a única mulher jovem que vive no asilo, tratada como criança e portando trejeitos de menina delicada que, não raro em filmes deste gênero, anda descalça e usa vestidos soltos sempre azuis. O mistério sobre sua vida nos cutuca toda vez que Hannah aparece e questionamentos pertinentes surgem na cabeça de quem está no cinema: “quem é ela?” e “por que ela é um caso especial?”.

Hannah, o caso especial – imagem disponível na página de divulgação do filme

 

A história demora a se desenvolver, mas a partir da metade do filme de 2h30, o espectador já é capaz de ligar as dicas da trama e desvendar seu desfecho. As informações complementares para o fim do suspense, contudo, não param de jorrar na tela, pressupondo certa subestimação da inteligência do público pelo diretor do filme. A fotografia da obra, entretanto, baseia-se em tons claros, um elemento marcante que nos deixa incomodados. Ponto positivo para o diretor.

 

Referências de Scorsese

Elementos sobrenaturais da história são explicados através da ciência. Mas afinal, do que se trata esse filme? É suspense, é terror, ou é ficção científica?

Como Martin Scorsese provoca em A Ilha do Medo, a sucessão de cenas de Verbinski também nos faz questionar: Lockhart está ficando louco ou não? O jovem empresário passa seu tempo procurando evidências para provar que aquela instituição não é um lugar comum, mas é sempre descoberto e torna-se um suspeito. Em uma de suas capturas, o diretor do centro de recuperação Heinreich Volmer, submete Lockhart à um tratamento invasivo, onde removem um de seus dentes com uma espécie de broca barulhenta e metalizada, personificando a famosa sala de dentista em uma cena agonizante.

 

 

Lockhart está mesmo louco? – cena de divulgação disponível no facebook oficial do filme

 

Dr. Volmer é interpretado por Jason Isaacs, ator conhecido por seu papel de vilão como Lucius Malfoy na saga Harry Potter. Com seu rosto suspeito, fica difícil não supormos que é ele o personagem malvado da história de terror, e que está sempre solicitando a seus pacientes que se hidratem, já que o hospital fica sobre um aquífero muito conhecido por suas qualidades de cura.

Jason Isaacs como Dr. Volmer – imagem de divulgação

 

A água é um dos elementos-chave da trama e as cenas que a retratam são bem trabalhadas. Quando alguém bebe água no filme, somos capazes de ouvir o som dos personagens engolindo e também sentimos sede.

 

Corra, que é por pouco tempo

Depois de assistir À Cura, poderíamos dizer que as filmagens são bem produzidas, mas que o filme não tem história. Na verdade, A Cura é repleto de histórias, caoticamente jogadas nas cenas, mas nenhuma delas é suficiente para não nos deixar entediados na sala de cinema.

O desfecho da trama, altamente explicativo e com um ar doentio pungente, só confirma que é impossível recuperar o que a obra deixou perdido. Para quem ainda quiser se arriscar, o filme, lançado aqui em 16 de fevereiro de 2017, continua em exibição nos cinemas brasileiros, e considerando a recepção crítica de todos os que já assistiram, por pouco tempo.

Daniele Fernandes

Daniele curte filmes e séries cult, e quando diz cult quer dizer coreano ou comédia romântica de Hollywood. Possui profundo conhecimento em economia, sabendo administrar suas famílias no The Sims 4.

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