Outdoor da Ansiedade

Da Redação Sicom PET, por Keytyane Medeiros


     Estávamos no meio de outubro, a primavera ainda estava só começando e todo mundo já começava a pensar em férias, verão e praia. Para acompanhar esse clima, a rede de lojas de departamento Marisa lançou uma propaganda em homenagem aos legumes, sopas e verduras que, segundo a campanha, teriam a capacidade de fazer com que as mulheres fossem mais felizes e bonitas. 
     Ao contrário do esperado pela empresa, a campanha teve uma péssima repercussão. Aqueles que imaginavam que apenas os grupos feministas reagiriam negativamente ao vídeo se enganaram. Mulheres de todas as idades, tamanhos e formas manifestaram sua insatisfação através da fan page da loja no Facebook, Twitter e blogs. 
     Aline Ramos, estudante do segundo ano de Jornalismo da UNESP/Bauru conta que, num primeiro momento, não ligou muito para a campanha, achando que se tratava de apena mais uma propaganda machista, tão comuns na mídia. No entanto, conta que mais tarde percebeu “como mensagens negativas chegam até nós como coisas belas, inocentes. E a questão vai além disso, porque além de intensificar o discurso da ditadura da beleza, também estimula a prática de hábitos alimentares que são considerados doenças.” 
     “Ditadura da magreza”. Esse foi um dos termos usados nos comentários feitos no canal do Youtube das lojas Marisa. “Parece que vocês não conseguem – ou fingem que não conseguem – compreender o real significado da palavra ‘ditadura’. Não se ‘segue’ uma ditadura por vontade própria. Você é subjugado por ela sem ter o direito de discordar ou concordar.” 
     A mulher hoje é em grande parte, associada à estética corporal, funcionando como um outdoor de produtos, pronta para vendê-los, como é o caso aqui citado da Marisa ou de várias revistas femininas. A partir da sugestão de dietas, dicas de moda e indicação para a prática de exercícios físicos com a finalidade de emagrecimento, a mídia participa ativamente da perpetuação dos padrões do belo e magro, favorecendo e repetindo um único padrão de beleza. Em seu artigo, Da imagem da mulher imposta pela mídia como uma violação dos direitos humanos, a professora da PUC- Minas, Cynthia Vianna, defende que a repetição do padrão reconhecidamente europeu nas capas de revistas e jornais ocasiona nas mulheres não representadas “além do furor consumista, tendências à ansiedade e depressão.”. 
     Essa ansiedade para atender os padres de beleza europeu pode ser lucrativa. Segundo o site da Rede Bandeirantes de TV, só em 2011 a indústria de cosméticos faturou mais de R$ 30 bilhões no Brasil. Nosso país, rico em mulheres naturalmente bonitas já é o segundo país no mundo onde se realizam mais cirurgias plásticas, são mais de 1.200 cirurgias de fundo estético por dia. 
     Em seus estudos, os sociólgos Villaça e Góes sintetizam o drama da mulher moderna, “somos livres. Cada vez seremos mais livres para projetar nossos corpos. Hoje a cirurgia plástica, amanhã a genética tornam ou tornarão reais todos os sonhos. E quem sonha esses sonhos? A cultura sonha, somos sonhadores por ícones da cultura. Somos livremente sonhados pelas capas de revista, os cartazes, a publicidade, a moda.” É justo, em nome do lucro, exigir mulheres cada vez mais parecidas, elas – nós – podem reagir de alguma forma à essas formas de opressão cada vez mais sutis e bem elaboradas? O irônico de tudo isso é que, as mulheres reais, cada uma com as suas particularidades, são bonitas e desejadas, mas a ansiedade e a insegurança aumentam à medida que novas edições de revistas femininas, comerciais e propagandas chegam às bancas e à TV, vendendo produtos, reiniciando o ciclo.


Conselhos para atingir o corpo ideal são pautas obrigatórias em revistas de beleza

Deixe uma resposta