Quando a dramaturgia aborda a transexualidade

A temática já foi explorada pela literatura, cinema e, agora, será vista em telenovela



Da redação SICOM-PET, Wesley Anjos

 

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Glória começou como colaboradora de Janete Clair. (Foto: Divulgação, Rede Globo)

Autora de sucessos da teledramaturgia brasileira, Glória Perez está acostumada a tratar de assuntos polêmicos em suas novelas. Quem acompanhou Explode Coração e não se surpreendeu com a ousadia da trama ao trazer com profundidade a travesti Sarita para o horário nobre? Se a sociedade brasileira ainda trata temas como gênero e orientação sexual como tabus, em 1995 a situação era pior. Já em 2005, a novela América seria a primeira a trazer um beijo gay para as telas, o qual acabou sendo censurado antes de ir ao ar. Desta vez, a transexualidade que será o alvo de Glória.

Não é de hoje que o tema tem sido abordado em narrativas. O que dizer de Orlando, um rapaz que certo dia acordou no corpo de uma mulher? Virgínia Woolf trazia em 1928 um típico nobre mulherengo que cresceu sob o teto da coroa inglesa. Ele teve que lidar com as mudanças físicas e emocionais de transição ao se ver como mulher. Imortal, Orlando atravessou três séculos e rompeu a barreira entre o masculino e o feminino.

 

 

 

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(Foto: Divulgação, Livraria Cultura)

Segundo Sandra M. Gilbert, especialista em estudos de gênero e literatura inglesa, Woolf foi uma feminista voraz. Orlando, na verdade, foi uma fantasia histórica escrita para presentear Vita Sackville-West, por quem a escritora nutria uma paixão, apesar de ser casada. Ela explica que Edward Carpenter, autor homossexual, já trazia em seu trabalho o que ele chamava de “terceiro sexo” ou “sexo intermediário”, com personagens que transcendiam pela androgenia os limites da heterossexualidade.

É possível que Carpenter tenha influenciado Woolf, pois ambos tiveram contato. “Recentemente, como sabemos, os teóricos de gênero e da sexualidade procuraram fazer distinções cuidadosas entre o travestismo, o transexualismo e a homossexualidade (masculina e feminina)” – esclarece Gilbert.

 

Representatividade

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Lili não foi interpretada por uma atriz transexual. (Foto: Divulgação, Estadão)

Indicado em 2016 a quatro modalidades do Oscar, A garota dinamarquesa, longa de Tom Hopper, trouxe a história verídica da primeira transexual a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo. Einar Wegener, interpretado por Eddie Redmayne, enfrenta o dilema de ter nascido no corpo errado. Conta com a ajuda de sua esposa Gerda, interpretada por Alicia Vikander, para lidar com sua transformação do masculino para o feminino e se tornar Lili.

As atuações de Eddie Redmanyne e Alicia Vikander foram muito elogiadas pela crítica especializada. Redmayne foi indicado ao Oscar de melhor ator, o qual não chegou a ganhar. Já Vikander foi premiada como melhor atriz coadjuvante. Embora a qualidade da atuação por trás de Einar / Lili tenha sido destacada, o filme recebeu duras críticas por não utilizar uma atriz transexual para o papel. Gerou-se o debate de representatividade, ao passo que mais uma vez um papel de destaque foi dado a um ator heterossexual e cisgênero.

À flor da pele

Se “representatividade” é a palavra do momento, a novela À flor da pele, de Glória Perez, prevista para entrar no ar em março de 2017, acerta em cheio neste aspecto. A autora tem entrevistado transexuais para montar o perfil de uma das protagonistas da trama, que contará com a direção de Rogério Gomes, o “Papinha”. Testes estão sendo feitos com atores e atrizes transgêneros para compor o elenco.

Inicialmente, Thammy Miranda estava cotado para um dos personagens transgêneros. Thammy já havia trabalhado com a autora em Salve Jorge, interpretando a Jô, uma policial masculinizada que teve que se infiltrar dentro da quadrilha que traficava pessoas. Ao se infiltrar, Jô se viu obrigada a se fantasiar dentro dos padrões tradicionais da “feminilidade”, segundo o olhar conservador. Após a sua cirurgia de mudança de sexo, o ator logo foi requisitado. Porém, devido à sua candidatura como vereador, não aderiu ao projeto.

Thammy diz ter dito dificuldades para interpretar Jô. (Foto: Divulgação, Rede Globo)
Thammy diz ter dito dificuldades para interpretar Jô. (Foto: Divulgação, Rede Globo)

Outra novidade em À flor da pele é o fato de a trama se passar integralmente no Brasil. É sabido que Glória Perez costuma abordar outras culturas em suas novelas, o que não deu tão certo na sua última produção. Salve Jorge não conseguiu manter o sucesso da sua antecessora Avenida Brasil. A tentativa de abordar a cultura turca se perdeu dentro do fio condutor, que era o tráfico humano, além de a autora ter repetido excessivamente o modelo de ponte-aérea do Brasil com outro país. Ela já fez isso com a Espanha, Marrocos, Estados Unidos, Índia e Turquia.

Apesar de gostar de trazer problemáticas sociais e de interesse público em suas tramas, ao contrário de outras novelas em que isso deu muito certo, como O clone e Caminho das Índias, Salve Jorge pecou pelo excesso de didatismo na abordagem do tráfico humano. Resta esperar para ver como que a transexualidade será abordada em À flor da pele.

 

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